Estou sentado com a cabeça para fora da janela num ônibus lotado e com cheiro de sovaco. Percebo a comoção da sobrelotação, mas estou contente. Uma idosa se esforça para não cair. Uma mãe e seu bebê choram juntos. Empurro um gordinho mais para o lado dele do banco, mas sua massa corporal precisa invadir o meu espaço. Exalo decepcionado e volto a mirar a rua. Tento meter a mão no bolso pra ver a hora no telefone, mas desisto. Puta gordinho inconveniente. O ônibus não está se movendo. Há trânsito. Um acidente talvez. Certamente um acidente. Ouço sirenes. O gordo quer ver e mete a cara na minha frente. Sinto suas banhas alisando minhas glandes. Empurro ele novamente com um "vai te fuder" bem alto. Ele vira a cara pro lado. O povo curioso conversa e reage em desconforto enquanto a velha se apóia no gordo, quase caindo. Ele parece nem sentir o peso da leve senhora. Coisa de gordo. Duas putas entram no ônibus e se espremem entre os outros passageiros. Estimulados e lambendo lábios, alguns machos roçam sua masculinidade nas pobres vagabundas. Fico com inveja ao lado do meu gordo e sinto crescer uma leve ereção. Exalo impaciente. Olho pra rua em descomforto e logo me levanto, praticamente pulando por cima do gordo. Piso na mala de alguém, caindo para o lado da velha. Ela reclama algo, mas eu já estou entre os outros passageiros e não lhe dou atenção. Escolho a puta mais massuda e roço minha ereção contra sua bunda na saída do ônibus. "Desce aqui comigo". Ela não parece se importar. "Então vai te fuder". Já na rua, acendo um cigarro e me inclino na parede do ponto de ônibus. Vejo dois ou três ônibus passarem e no quarto eu entro. Não há muito movimento aqui então, decepcionado, saio no ponto seguinte. Exalo em ânsia e embarco no próximo. Esse estava mais animado, portanto tento chegar ao fundo do ônibus entre sacolas, pedreiros e estudantes. O povo reclama mas foda-se. Uma espécie de mãe de família não tira os olhos de mim. Ameaço com sutileza. Gesticulo paixão e mando-lhe um beijinho. Ela deixa de olhar com espanto e um puta ar de realeza. Exalo em negação e descanso as mãos nos joelhos. Olho em torno de mim e sinto vontade de cagar. Faço o trajeto para a saída do ônibus entre as mesmas sacolas e muletas e estou na rua novamente. Vou até o primeiro beco e cago numa caixa. Volto ao ponto com a caixa na mão e observo o movimento. Entro no primeiro ônibus a aparecer. Converso com o motorista sobre o motor e a mecânica do veículo. Pago ao cobrador e me sento. Vejo no meu relógio e são cinco horas da tarde. Às seis tem uma rota legal. Estudo o bairro e me situo. Deixo a caixa no ônibus, saio quatro blocos depois e atravesso a rua. Espero uns quinze minutos e lá está ele, o ônibus mais cobiçado do dia. Entro, ele está lotado e suado, do jeito que eu gosto. Me espremo até finalmente chegar ao meio e me deixo fluir nos movimentos do ônibus e o vai-vem dos corpos inertes de meus colegas passageiros. Zen.
-Guilherme Rocha
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3 comments:
é todo um sônia braga!
é uma continuacao?
ri muito, gostei, sério.
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