Eu a conheci em algum desses momentos de bebedeira onde tudo que conseguimos lembrar são alguns flashes sem ligação direta entre si. Ela parecia estar mais bêbada do que eu pelo que me lembro e chegou assim, sem mais nem menos, tudo o que queria era um cigarro. Eu lhe dei o último com uma certa relutância, mas se soubesse que nos tornaríamos tão grandes amigos eu teria lhe dado todos os cigarros do mundo.
Sentou-se ao meu lado, eu fechei o caderno onde estava rabiscando algumas idéias para um possível conto ou romance ou poema.
– O que diabos você faz escrevendo por aqui uma hora dessas?
Estávamos em Tambaú, próximos ao busto do almirante Tamandaré,
– Então você é uma porcaria de poeta – Ela falou e eu achei aquilo muito engraçado.
– Você está mais do que certa – falei –, eu sou mesmo uma porcaria de poeta e não conseguiria falar de amor mesmo que quisesse.
Ela me olhou com uma expressão bem séria e depois caiu na gargalhada.
– Então eu não sou a única com problemas aqui, né?
– Como?
– Eu também não tenho muito o que falar do amor... Você quer sair? Eu tenho um baseado aqui, a gente poderia fumar, que tal?
Eu achei a idéia realmente interessante, se tinha alguma coisa de que eu precisava naquele momento, com certeza era fazer a cabeça. Havia começado a fumar nos tempos da faculdade, no entanto não costumava fazê-lo com pessoas desconhecidas. Mesmo assim aceitei o convite.
Andamos pela orla conversando como se nos conhecêssemos há anos, ela me contou que era estudante de jornalismo pela UFPB e não suportava o maldito curso, que qualquer dia desses iria acabar se embucetando e mandando tudo pra puta que o pariu! Pegar uma mochila rabugenta, pôr nas costa e pegar o beco pra qualquer lugar ou lugar nenhum, era uma personalidade forte a dela, eu me admirava principalmente por vir de uma garota tão nova e tão bonita. Juntos secamos o resto da vodka, o que foi suficiente para ficarmos altos.
Sentamos num lugar deserto e seco para preparar a estaca, ela pediu pra que eu sentasse e abrisse as pernas, ela se encolheu no meu colo e eu a protegi do vento enquanto ela acendia o fumo. Depois que ela acendeu fumamos e ficamos bem à vontade um com o outro, agora éramos cúmplices. Deitamos na areia e ficamos viajando nas nuvens, ela era do tipo que ficava achando tudo engraçado quando estava com a cabeça feita, me mostrava as coisas que eu só conseguia ver depois de algum tempo. Coisas que eu nunca imaginaria conseguir ver se formando nas nuvens:
– Cara, olha lá o pato Donald trepando com o chapolin colorado – Começava a gargalhar histericamente.
Eu olhava por um tempo sem entender, sem conseguir visualizar e então do nada conseguia ver. Uma nuvem com o formado do pato Donald por trás de uma nuvem parecida com o Chapolin de quatro, daí começava a rir com ela, ríamos cada vez mais e mais alto. Ela ainda me mostrou um falcão, um fantasma com a boca aberta querendo nos devorar e um smiley triste, eu a mostrei um seio gigante, uma cruz torta e um índio com um cocar de penas na cabeça e um chocalho na mão. Ele parecia dançar em algum ritual shamânico. Ficamos um tempo em silêncio, fazendo reverência ao índio que ia se desfazendo lentamente no céu até que ela se levantou como se tivesse acabado de ter alguma revelação divina e começou a tirar a roupa, eu fiquei um pouco nervoso, ela era uma garota muito bonita e o seu corpo era perfeito.
– Vamos dançar – disse com naturalidade tirando o sutiã e a calcinha –, vamos, tire a roupa e vamos dançar em homenagem ao índio e a essa noite...
Eu me sentei, estava tonto e começando a ter uma ereção. Precisava de um tempo.
– Vamos, droga, antes que ele vá embora! – falou apontando para o índio.
Eu finalmente me levantei e comecei a me despir, estava frio e as minhas coisas estavam com a metade do tamanho, senti um pouco de vergonha, mas passou assim que fiquei completamente pelado. Ela segurou em minhas mãos e começamos a rodar e pular em círculos, gritando palavras sem sentido e girando sem parar, fechava os olhos e gritava, grunhia, erguia as mãos ao céu, ao mar. Depois de um tempo comecei a sentir uma espécie de calor me invadindo e uma euforia crescente. Nada existia naquela hora, nem eu, nem ela, nada. Gritávamos cada vez mais alto, ríamos histericamente e improvisávamos coreografias sem nenhum sentido. O mundo poderia explodir naquele momento, nós não estávamos aqui, estávamos no Sol, no todo, no nada. Éramos dois lobos uivando na noite de lua cheia, não havia frio, não havia nada. Foi então que bateu uma tonteira e caímos sentados na areia, tontos, suados e eufóricos. Ela gargalhava entorpecida e eu tentava acompanhá-la sem nenhum fôlego.
– Vem, vamos dar um mergulho... – falou ofegante e correu para o mar sem esperar nenhuma resposta.
Ela é louca, pensei sorrindo enquanto me levantava com a bunda cheia de areia e corria para acompanhá-la.
A água estava uma delícia, fria, mas não gelada, e o mar estava calmo. Mergulhamos e nadamos como duas crianças afoitas na piscina, ela me abraçava e gritava nos meus ouvidos que a água estava uma delícia, eu respondia com uma gargalhada e continuávamos nossas brincadeiras aquáticas. Depois de um tempo cansamos e começou a bater um frio, ela chegou bem próximo, eu senti uma nova ereção e tentei recuar um pouco.
– Não precisa se afastar, eu também estou excitada – falou.
Meu coração acelerou um pouco, ela enrolou seus braços no meu corpo e me deu um beijo molhado e salgado, depois se afastou.
– Vamos, poeta, ta muito frio e precisamos nos secar antes de nos vestirmos.
Eu sorri e falei brincando que preferia esperar mais um pouquinho até que as coisas melhorassem pra o meu lado. Ela sorriu e disse:
– Acredite, não é o primeiro pau duro que eu vejo na vida.
Sorri e saímos da água. Ficamos pulando um pouco pra evitar o frio e secar mais rápido, contudo dessa vez eu me sentia tímido, ela parecia não se importar. Nos falamos pouco e depois vestimos nossas roupas. Já era alta madrugada e eu não teria ônibus pra casa. Ela falou que morava ali perto e ainda me chamou pra ficar lá com ela até amanhecer o dia, mas eu preferi ir embora e ver o que acontecia, ela pegou minha caneta e rabiscou um número de celular.
– Quando precisar de uma louca, pode me ligar – Falou – Além disso, te devo um cigarro.
Eu fiz que não com a cabeça e a abracei. Nos despedimos e eu fui caminhando pela avenida Epitácio Pessoa com as mãos no bolso e pensando na loucura daquela noite, a avenida estava quase deserta àquela hora e eu estava sem cigarros, eu sempre detestei me encontrar sem cigarros quando estava nessa situação e resolvi procurar algum fumante a quem eu pudesse pedir um, a solidariedade entre os fumantes beira o socialismo. Sentei em um ponto de ônibus e abri o meu caderninho surrado, não demorou muito e começaram a chegar pessoas, uma delas estava fumando e eu lhe pedi um cigarro. Logo, eu também estava fumando.
Peguei o papel com o número e lá estava: “Alyne, Lyne mesmo poeta.” Seguido do número dela. Nós ainda nos veríamos muito outras vezes aquele ano e juntos aprontaríamos as putarias mais sórdidas que o meu diário hoje registra, mas isso são outros miúdos...
Roberto Denser
1 comment:
Roberto, muito bom, cara! Eu não li esse texto lá na comuna, mas foi legal você tê-lo postado aqui. Dizem que um escritor só pode falar de sua vida, não é mesmo?
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