Saturday, January 20, 2007

II
Um milhão de formigas, algumas mortas de tanto cansaço, nada na xícara de café numa celebração na piscina escura de bordas brancas de porcelana. Fumo o último cigarro e me despeço da escrivaninha enquanto aprecio uma marchinha do meu já saudoso computador. Hora do ultimo banho no meu banheirinho de ladrilhos azuis. As lágrimas se misturam com a água que cai em mim, poucas de tristeza, muitas de adeus. Escolho a calça com cuidado, e a camisa com conforto. Tênis velho, se usar um novo ele pode se perder e ainda quero que eles calcem pés que ainda vão se divertir. Não tanto como eu e o meu tênis velho. Escrivaninha novamente, alguns livros, mais um cigarro clemente que me implora mais alguns minutos de despedida. Carteira com todo o dinheiro do mundo, chave do carro, bilhete de aviso e saio. Com o cigarro na boca. Um último luxo nada fraternal pra quem vai sair pela porta e não voltar mais.

Meus olhos vagam pela cidade iluminada com a curiosidade de uma criança. Os detalhes nunca me pareceram tão vistosos: um velho mendigo mastiga um naco de fumo, prostitutas de sobretudo abrem e fecham, mostrando a vergonha de seus corpos adiposos, o café de todas as noites serve mais uma xícara pela garçonete azeda e mal-comida, os meninos de sempre com seus malabares de madeira podre esmolando nos sinais. A cidade pulsa em seu desgosto cotidiano, e, pensando nisso, sorrio com o canto da boca, e digo baixinho – acaba-se hoje, em grande estilo.
III

Meses e meses de preparação. Muito dinheiro. Uma lista enorme e seleta de convidados. Captação das mais diversas drogas do mercado: cocaína, mescalina, muitos ácidos e até um pouco de heroína da áfrica do sul. Uma encomenda de caixas de cigarro digna do wall-mart. Vinhos, conhaques, toneladas de latas de cerveja, litros de whisky, pipoca, bolos, carnes, ovos e caixas e mais caixas de um sortilégio de anfetaminas. Todas coloridas e dispostas em um grande vidro de mms. O que se mostrou mais difícil foi a elaboração da lista de regras, sobretudo as que legislavam os possíveis desmaios e tentativas de sono. Isso poderia arruinar toda a noite secular. Optamos por controle aversivo máximo – um capanga muito bem pago e com um elaborado plano de fuga, andaria com sua metralhadora giratória pronta para crivar de balas o primeiro indivíduo que dormisse, o que acabou lhe rendendo uma razoável eliminação de desafetos a seu bel-prazer.
_______
Mateus Souza (mais um pedaço do texto anterior)

2 comments:

Anonymous said...

ops,
preciso de um corretor ortográfico...

Vitor Souza said...

Bem escrito (como sempre), mas hoje eu não tô sagaz não, também não te saquei.