Tuesday, January 09, 2007

Em homenagem a D.

Você nasce, diz que ama, dói e morre. Há quem me diga pessimista, há quem me diga realista, mas eu, eu cansei de me dizer, eu me arrasto pela vida, absorvendo o tédio-de-cada-dia pelas plantas dos pés. Já me disseram que o maior minuto de sua vida é o que antecede a morte. É aquele retrospecto: infância feliz jogando bombinhas na casa de vizinhos, brincando de médico com a irmãzinha do amigo incestuoso, correndo com mais alguns menininhos atrás de uma bola suja. Ai vem a adolescência, primeiras competições, rebeldias, shows de rock, e a paixãozinha boba. Espinhas na cara, punheta e revistas eróticas. Juventude madura, politização, passeatas, namoros sérios, orgias, bebedeiras, drogas, um pouco de trabalho, um tanto de faculdade, e pronto, vida adulta. Casa, carro, filhos, horários, happy hour, amante, cachorro, viagens de férias, velhice, visita de filhos, morte.

Esse minuto funesto me persegue a cada segundo. A anormalidade de minha vida consistiu no meu incômodo cotidiano de experimentar o caminho natural das coisas. O exército ruma à Normandia, e você assiste de camarote. Não dá um tiro. Fica em sua poltrona comendo biscoitos de gordura hidrogenada e bebendo coca-cola. Mas o problema não é espectar, é saber que é expectador. É ver a teia a ser tecida pela aranha cabeluda e sorridente, que de quando em quando, libera um veneno de alívio.

A vida de um sujeito pode chegar a tal ponto que a idéia de morte, longe de ser alívio, é tédio. Sua libido escorrega montanha abaixo, seu corpo mal pede comida, e quando se arrasta, é até as microondas da televisão de cozinha, onde os filmes hollywoodianos são mais baratos e comerciais, mais tragáveis. Seus telefones param de tocar, seu carro enferruja e seus pais vão à Europa e te mandam um postal de ano em ano.

Da janela penso que essa é a vanguarda da geração que bate à porta. Nem o prozac salva. Somos um câncer com um ego expandido, que a tudo avalia e encolhe, na incompatibilidade de te trazer algum prazer. A dor sempre esteve aí, mas nunca foi tão inteligente. Hoje ela conta com bilhões de neurônios que mal são apagados com álcool, sexo ou drogas. É uma parte da fisiologia, um novo apêndice que cresce metros e metros por entre a massa cinzenta, até absorver todo organismo. Olá, seja bem vindo, essa é a minha gang, meus comparsas, meus filhinhos do caos, meus pós-apocalípticos. O novo mundo já foi descoberto, o estado já é laico, a Alemanha já foi vencida e a guerra fria acabou. O que sobrou pra nós? A Paris Hilton.

- soldado john, como foi libertar um pais das mãos de um ditador sanguinário?
- sei lá, me deu vontade de dar uns tiros e vim pra cá me divertir. Foi bem legal, consegui até por dois desses caras queimadas para se comerem aos berros de alaaaaaaaaaaaaaaah!

Na penumbra de letrinhas pretas, borro a paisagem de uma geração que nem se reconhece. Geração? Eu sou um. Você é outro. Os universos entre nós nunca estiveram tão distantes. A cova nunca foi tão profunda, e o caixão já apodreceu. Todos de olhos vidrados e esbugalhados na tela brilhante! Avante! Ainda temos que descobrir o mistério que levou a Britney Spears a se separar do Justin! Como viveremos sem isso?

Uma carreira, duas carreiras e um vislumbre de lucidez, uma vontade de me juntar aos vietnamitas e enfiar balas em cabeções americanos com cara de budweiser. Vontade de uma causa, de um livro vermelho, de uma cartilha de guerrilha, de um movimento pacifista neo-hippie, vontades voláteis. Mais uma carreira. Shhhhhhhhhhhh. Vontades voltam e somem com as trilhas mágicas do pó da cinderela. O golden gate se abre e se fecha em intervalos suficientes para que você chegue a alguns milímetros de atravessá-lo, mas nunca consiga, nunca.

Meus olhos já secaram e andam rijos. Não existe motivo de choro. Não existe a dor melancólica dos poetas, o coração partido e a paixão idealizada... Existe apenas essa dor seca que contorce os seus intestinos e reviram seus bagos, e só. Ela é seca, ela não chora. Ela pede leite condensado e um pouco mais de musicas do último segundo e de imagens re-imagens pré-imagens. Nada se inventa. Nem se cria. Transforma-se? Mentira. “Acredite se quiser”.

A mudança é um sonho sórdido, pois se ampara na idéia de que alguma coisa melhora. Impossível. Se uma coisa melhora, ela passa ontologicamente a adquirir o status de pior. E você quer mais e mais. E mais de nada. Porque nada vai saciar a sede. Inconformado, rio do pote seco. Uma risada maligna e dolorosa, de quem não aceitou a vida, mas não quer mais lutar por ela – e nem quer o trabalho de desistir. Só o vazio, um pianinho ao fundo e um copo de rum.

Aos beliscões tentam me reanimar ‘vamos lá, vai ser bom’. Bom? Nunca é bom. É ruim porque é vazio, maquiado, e acaba. E o sabor do batom se desfaz à primeira olhada no espelho. Não sei se preciso disso. Não sei se não preciso. É um momento vivo onde existe a constatação de que estamos completamente mortos e ressequidos, trocando farpas humildes em mesas de bares mexicanos.

Vamos falar de amor. Pernas abertas em luxúria, cacetes armados, sussuros indecentes e gozos. E ai? O que existe depois disso? Passagem pra eternidade? Não. Pro inferno. O apêndice te cutuca pra lembrar que acabou e esvaziou-se. Secou, morreu. Até a próxima. Ereção. Ejaculação. E a próxima e a próxima. Um dia seu pau não sobe. Tome remédios e continue assim, vamos longe!

A fé é uma experiência fantástica. Ela irrompe das dialéticas de beneces e perdão e fulmina o peito com a paz. A paz de ver o tumor e sorrir. Já vi um velho pastor à beira da cama sorrindo ‘vou encontrar meu criador’. Mesmo que ele não o tenha encontrado, ele viveu. Alienação? Não. Vida. Não vida é respirar o ar tuberculoso da cidade que te entope as entranhas de um lodo preto que não se lava.
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Mateus Souza


4 comments:

Anonymous said...

è isso oque nos faz este mundo putrefado criado por nós mesmos.Aonde nada valhe alguma coisa, tudo tem um preco(barato demais por sinal)e nem mesmo música se fazem como antigamente.

Vitor Souza said...

Cara, esse cenário que descreveste é dantesco. Embora eu o pintasse com cores um pouco mais suaves, seu texto não deixa de ser realista pra cacete. E expressou alguns sentimentos meus: onde estão as causas? Quero morrer por uma idéia, pelo amor-de-deus!

oldharbourlass said...

Bicho, a tua intensidade me contagia mesmo!!
é engraçado como as imagens vêm e vão na velocidade da tua narração!

bravo, bravo!!

Anonymous said...

é...dizem por aí que a maldita é a consciência. eu tô até acreditando...