Beth rezava antes de dormir. Nada mecânico como pai nosso ou ave Maria, apenas travava um rápido e amistoso diálogo com Deus. Raramente pedia algo, normalmente agradecia. A despeito de ter sido batizada e ter feito a primeira comunhão, há anos não aparecia à missa do Padre Juan Ortiz que já demonstrava sinais derradeiros de vida, mas ainda encontrava força na alma para manter a severidade no controle de seu rebanho. Seu sotaque castelhano, aliado aos pesados traços da senilidade, conferiam a ele mais autoridade. Reclamava a ausência de Beth com sua mãe, Dirce, mas não havia argumentos capazes de trazer de volta a “ovelha desgarrada”, como dizia o pároco.
Aos 21 anos, Beth chamava a atenção de homens e mulheres pela exuberância de suas formas. Uma bela morena de longos e ondulados cabelos negros, olhos castanhos e, sobretudo, não havia como não notar sua extraordinária bunda arqueada, vibrante, firme e bojuda. Era a própria Dirce numa versão bem melhorada, pois a mãe havia sido cobiçada na juventude, e ainda guardava traços delicados e formas generosas. Era, sem dúvida, uma mulher gostosa chegando aos 50 anos. O casario assobradado, com piscina e jardim aos fundos, abrigava apenas as duas mais a velha empregada de duas décadas. O pai morrera jovem quando Beth tinha apenas dois anos. Morte súbita, do coração. Era um bom homem, hábil comerciante que deixou à mulher e única filha renda suficiente para sustentá-las com folga e conforto por mais duas gerações. Mas Dirce estava longe de ser dondoca e acomodada e tinha renda própria, dava aulas de reforço de português e geografia para alunos da quinta à oitava série.
Beth fazia letras na universidade federal, gratuita, entrou com louvor e boas notas, e sonhava abertamente em ser escritora. Perseverante e abnegada, logo no primeiro ano do curso tratou de publicar um livro de poemas, obviamente bancado com recursos próprios, mas que recebeu elogios acalorados de Rubens da Costa Braga, professor de literatura, famoso por suas acidez e mau-humor. As más línguas diziam, sempre à boca pequena, que a crítica elogiosa do mestre, publicada no jornal universitário, não tinha outra razão senão impressionar Beth para, como isso, quem sabe, ter uma boa chance de transar com ela. Mas o boato ainda mais capcioso dava conta de que a jovem Beth havia conseguido tal resenha favorável unicamente porque já havia deitado com o rabugento professor. Davam como certa essa abjeta troca de favores.
Por dois anos o boato fez mais sucesso que o livro. Beth não se preocupou em desmentir nada pois, esperta como era, notou que sua obra primeira “Sonhos de Borboleta” fora a mais comentada no campus durante todo esse tempo. Os calouros a admiravam e temiam, apontavam para ela e cochichavam. Gostando ou não - muitos sequer liam - a curiosidade fez com que a primeira impressão de 500 exemplares fosse esgotada nesse período. As garotas, mais terríveis, tratavam de apimentar a trama. No último ano de Beth no curso, corria uma versão pitoresca de que ela havia feito um pacto com o demo para que seu livro fosse um dos mais lidos, e comentados, do curso. De resto, Beth até que levou uma vida universitária bem normal. E de tão feliz da vida com o sucesso polêmico de seu livro nem quis escrever mais nada e apenas desfrutou de sua efêmera fama torta. Afinal, fama, reta ou torta, sempre traz proveitos.
O fato é que logo após a formatura Beth foi procurada por um executivo da área editorial. Era um sujeito de uma editora respeitada e bem conhecida. E como bom homem de negócios foi direto ao ponto. “Queremos publicar seu livro”. Beth não fez rodeios. “Quanto levo nisso?”. “Cinco mil reais no ato e mais 20% das vendas. Vamos fazer uma tiragem de cinco mil exemplares para fazer um teste nas capitais do sul e sudeste”. Negócio fechado. O livro saiu e, na última capa, o eloqüente texto lustroso de Rubem da Costa Braga destacando o talento prematuro de Beth e a delicadeza idílica dos poemas. Uma revista semana fez a crítica favorável. Tudo arranjado pela editora. As vendas foram impressionantes em se tratando de livros de poesia no Brasil. Em seis meses, quase três mil exemplares comercializados. Beth comentou com o executivo de seu sucesso na universidade por conta dos boatos. E contou, com detalhes, tudo o que inventaram dela. Os olhos do executivo brilharam. Um mês depois pipoca na imprensa: jovem e talentosa poeta Beth Galleano bancou a publicação de seu livro trabalhando como prostituta de luxo. Daí pra frente, foi programas de tv, entrevistas, palestras e convites para posar nua em revistas masculinas. “Sonhos de Borboleta” está na décima segunda edição. Vinte e cinco mil exemplares vendidos. Sucesso editorial. Beth guarda, contudo, uma frustração. Não pinta inspiração para escrever o próximo. Na verdade, não tem tempo. Reza diariamente para conseguir escrever um romance. Mas antes precisa pensar que tipo de boato vai espalhar.
por Cass
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3 comments:
Muito legal, acho que me identifiquei com a personagem.
Sabrina Keppler
aê... mestre cassane
finalmente postando
curti bastante
Guilherme
Essa mulher existiu? Boatos fazem mitos, legal.
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