Gharbyronethar Smilovetrach Kanesh saltou do animal e pôs-se a correr. Mesmo sabendo ser a única alma viva no interior daquele frio vale, não quis arriscar. Escondeu-se entre um denso arbusto seco e o enorme paredão de gelo e acocorou-se: seus intestinos gritaram de dor e de alívio.
Ao se reerguer, rosto suado, pernas trêmulas, Kanesh se deu conta de que aquele havia sido o melhor local que encontrara depois de um dia inteiro de cavalgada para passar a noite. Mas já era tarde: Melhor que a área inteira fosse interditada pela Saúde Pública!
Tentou retomar sua montaria, mas percebeu que, naquele momento, lhe era impossível sentar. Segurou com força (e raiva) as rédeas do seu animal e prosseguiu a pé. Fracassara na missão que lhe fora confiada e até que não achou ruim completar o restante da jornada caminhando. Isso adiaria o cara-à-cara com os velhos...
O frio no interior daquele escuro vale era realmente de matar, mas ele não pôde deixar de se impressionar, a despeito de todo o seu mau humor, com a fantástica luminosidade das três luas que começava a refletir nas enormes paredes de pedra totalmente cobertas de gelo.
Kanesh era uma espécie de rei. Não o rei de uma monarquia na forma em que a conhecemos, mas um rei eleito em primeira instância pelo povo, e num segundo momento, por um conselho de “sábios”. Na verdade, essas verdadeiras “peças de antiquário” eram quem realmente governavam. “Feiticeiros”, grandes proezas metafísicas lhes eram atribuídas (embora isso nunca tenha sido provado).
A configuração política do mundo de Kanesh era mais ou menos assim: Durante a Segunda Grande Batalha de Todos os Reinos, os Bárbaros-do-Norte ficaram praticamente de fora. Tiveram sua participação, queimando cidades e praticando outras carnificinas, mas seu reino não havia sido atingido. Ao final do grande conflito, os outros reinos, arrasados e sem recursos, tiveram que lhes pedir ajuda. Então esses bárbaros, que de bárbaros não tinham nada, prontificaram-se a ajudá-los, emprestando dinheiro, comida e o que mais precisassem. A juros altíssimos!
A idéia dos Bárbaros era a seguinte: se a dívida não fosse paga até um certo prazo, ficaria impossível, nos anos posteriores, pagá-la, e uma dependência econômica eterna seria estabelecida entre o reino devedor e os Bárbaros-do-Norte. O plano dos bárbaros deu tão certo, que até mesmo os Reinos do Fogo, um conjunto de “repúblicas vermelhas”, que vivia de acordo com outros padrões econômico-sociais, teve de ceder aos caprichos dos bárbaros do norte, pois não puderam resistir ao bloqueio econômico a que lhes foi imposto pelos demais reinos da terra, submissos (por dívida) às vontades dos Bárbaros-do-Norte. Isso levou os vermelhos à queda, e suas economias, outrora fechadas para o resto do mundo, tiveram que se abrir.
Então, num belo dia (não tão belo assim, pois chovia torrencialmente), todos os reinos do mundo glacial passaram a professar, ao mesmo tempo, a Ideologia Verde, a lei do cada-um-por-si-e-Deus-contra-todos, o “modo de ser e viver” dos Bárbaros-do-Norte.
“Por que então”, pensaram os Bárbaros-do-Norte, “não criamos um modelo de economia onde todo mundo compre de todo mundo? Onde todo mundo venda para todo mundo? Sem fronteiras, sem regionalismos-econômicos, um único mercado, ideologicamente verde?”.
Mas esse novo projeto dos Bárbaros-do-Norte esbarrava logo em um pequeno problema: Como fazer com que pessoas de culturas diferentes, de costumes díspares, com traços culturais ímpares, consumissem um mesmo produto? A solução seria a de uniformizar também a cultura, através da imposição, da propaganda, do entretenimento e da manipulação. Não é necessário dizer que o padrão para essa nova cultura uniforme e global seria baseada no estilo de vida e costumes dos Bárbaros-do-Norte.
Gharbyronethar Smilovetrach Kanesh pensava sobre tudo isso enquanto ajeitava um canto para dormir:
“Um rei enrolado em molambos, um pau-mandado, isso que sou!”.
E xingou um palavrão para o vale silencioso enquanto amarrava seu animal numa moita:
“Se o reino miserável do leste da região selvagem não produz nem para si, como é que ele vai fazer parte desse mercado econômico mundial? Vai exportar o quê?”
“Se esse mesmo reino miserável não vende para ninguém, que necessidade um reino do próspero leste montanhoso terá de absorver sua cultura? Mundo cão! Filhos da puta do Conselho dos Sábios, iguais aos filhos da puta dos Bárbaros-do-Norte. Não tem diferença nenhuma. Fracassei em minha missão? Sim! Mas quem não fracassaria? Era um jogo de cartas marcadas”.
A missão a que Kanesh se referia, era o pedido de exclusão do seu reino de um novo projeto dos Bárbaros-do-Norte: a Área de Livre Comércio dos Dez Reinos, que visava à consolidação definitiva da supremacia dos Bárbaros-do-Norte sobre o mundo glacial, pois eles passariam a levar ainda mais vantagens em negociações econômicas.
“E agora nos ameaçam dizendo que sofreremos retaliações se não quisermos participar. Malditos!”
Motivado pelo ódio, Kanesh apertou os punhos e chutou com toda a força uma pedrinha pontiaguda que descansava aos seus pés. A visão da pedrinha voando para longe, batendo num pedregulho cinzento e deslocando-o momentaneamente do seu ponto de repouso, despertou em Kanesh seus instintos mais revolucionários:
“Chega de ser comportado!”, gritou, rosto voltado para o céu. Ergueu sua espada e preparou-se para dizer a frase célebre que o faria figurar nos livros de história como um mito da revolução. Mas de repente, ficou neurótico com a idéia de espiões anotando os seus passos e guardou a lâmina. Respirou fundo e disse baixinho:
“Hoje vou dormir sem tomar banho”.
Vitor Souza
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2 comments:
Tipo ´senhor dos aneis` ou guerreiro Krisna numa fábula nem atual, nem universal:Apenas essa estória se repete ha muitas épocas.
Primeiro capítulo de um conto promissor.
muito bom vitor!
o final é sensacional!
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