Inventariar
nada existe
nada resiste ao tempo que quis passar
voam nuvens
embaralham o céu que faz chover
colho uma flor em seu jardim morto
e no inventário da vida herdo os seus venenos
as vezes um sopro
as vezes um cheiro
faz-me lembrar
e nas lembranças me perco
anestesio
já não quero
mergulho numa piscina rasa
meus joelhos deslizam nos ladrilhos lisos
num soluço alcanço sua boca
e no seu beijo não ouço nada
torno-me sentidos
colho dos seus olhos uma lágrima
do jardim a flor
da sua boca o sorriso
e de mim não colho nada
fico no ressecamento dos meus órgãos
suspensa
num chão que não posso pisar
e acordo no susto da onda
que me impele
impedindo-me de passar
Afogo-me no oceano vasto dos seus sonhos
Já não existo
Sou só imaginação
Outrora seguia alguns rastros
Hoje já não vejo as pegadas de suas areias
Sou um susto enfim
Um suspiro no fim
No fim do caminho
No vento turvo
No erro fundo de suas carnes errantes
Tremulo no seu gesto
E a essa altura inexisto
Sou sua imaginação
E me viras em páginas brancas
Onde canta um pássaro morto
Vejo edifícios a despencar
Em plena praça pública nasce um jardim que morre depois da morte
Mergulho num aquário de sons
No vácuo profundo que ressonante eleva sua figura
E eu já não vivo.
Num vital de estrelas de esteta beleza
E o som dos ouvidos surdos
Soam seu pranto
Lastimável
Anseio desprender-me, renascer numa grande festa de reis
Espero pelo dia
Enquanto isso reflito-me no cinza espelho de seus olhos
Não existo
Sou imaginação.
Nanah Gracia
Subscribe to:
Post Comments (Atom)
2 comments:
Isto esta' bom...
Não tenho palavras. Gostei!
Post a Comment