1.
Ela estava em pé. Eu a deixava falar com desenvoltura sobre tudo. Meus olhos acompanhavam as nuvens que caminhavam entre seus cabelos soltos que balançavam com o ar frio de uma manhã de outono. Ela fez uma pergunta tola que desisti no mesmo instante de responder. Parecia que seus lábios lambusados de batom vermelho pronunciavam, assim como seu corpo, um significado especial que eu desconhecia. Se não houvesse mais nenhuma pergunta, eu talvez pudesse descobrir o que se passava, e foi pensando nisso que acendi o cigarro e a olhei mais uma vez com meu rosto pálido.
2.
Uma risada seca e áspera. A boca abria tanto que caberia uma bola de bilhar entre seus lábios. Ela gargalhava sob o efeito do vinho barato e ajeitava seu quadriculado cachecol, seguindo a direção dos carros. Fiquei em silêncio por uma meia hora, bebendo o vinho que restava na garrafa, adimirando a coloração desbotada de sua grande garganta. Ela titubiou na calçada e ergui meu braço para segura-la. Hesitou por um instante e seu rosto tomou um contorno sério e preocupado. Depois voltou a rir acreditando que o motivo de sua risada não era o vinho, mas sim sua suposta queda que detive com as mãos.
João Pedro Fernandes Lopes
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