Sunday, January 28, 2007

Relacoes

Quarta feira por volta das 7 da noite, 6 pessoas cairam no buraco do metro da estacao da Sé.Todos morreram esmagados pelo trem com uma multidao feita de platéia do trágico acidente.
No mesmo dia de manha li no jornal que os leoes do jardim zoológico da cidade seriam executados até o fim do mes por falta de verba da prefeitura caso nao recebessem doacoes para alimenta-los.
Agora a pergunta que nao quer calar:Por que nao?

Gerou-se desumanamente carne.Para ser humanitariamente carne.Isso me faz chegar à uma única conclusao:Deus age providencialmente e de forma muito espontanestranha.


Augusto Monteiro

Friday, January 26, 2007

Tardes de Ônibus

Estou sentado com a cabeça para fora da janela num ônibus lotado e com cheiro de sovaco. Percebo a comoção da sobrelotação, mas estou contente. Uma idosa se esforça para não cair. Uma mãe e seu bebê choram juntos. Empurro um gordinho mais para o lado dele do banco, mas sua massa corporal precisa invadir o meu espaço. Exalo decepcionado e volto a mirar a rua. Tento meter a mão no bolso pra ver a hora no telefone, mas desisto. Puta gordinho inconveniente. O ônibus não está se movendo. Há trânsito. Um acidente talvez. Certamente um acidente. Ouço sirenes. O gordo quer ver e mete a cara na minha frente. Sinto suas banhas alisando minhas glandes. Empurro ele novamente com um "vai te fuder" bem alto. Ele vira a cara pro lado. O povo curioso conversa e reage em desconforto enquanto a velha se apóia no gordo, quase caindo. Ele parece nem sentir o peso da leve senhora. Coisa de gordo. Duas putas entram no ônibus e se espremem entre os outros passageiros. Estimulados e lambendo lábios, alguns machos roçam sua masculinidade nas pobres vagabundas. Fico com inveja ao lado do meu gordo e sinto crescer uma leve ereção. Exalo impaciente. Olho pra rua em descomforto e logo me levanto, praticamente pulando por cima do gordo. Piso na mala de alguém, caindo para o lado da velha. Ela reclama algo, mas eu já estou entre os outros passageiros e não lhe dou atenção. Escolho a puta mais massuda e roço minha ereção contra sua bunda na saída do ônibus. "Desce aqui comigo". Ela não parece se importar. "Então vai te fuder". Já na rua, acendo um cigarro e me inclino na parede do ponto de ônibus. Vejo dois ou três ônibus passarem e no quarto eu entro. Não há muito movimento aqui então, decepcionado, saio no ponto seguinte. Exalo em ânsia e embarco no próximo. Esse estava mais animado, portanto tento chegar ao fundo do ônibus entre sacolas, pedreiros e estudantes. O povo reclama mas foda-se. Uma espécie de mãe de família não tira os olhos de mim. Ameaço com sutileza. Gesticulo paixão e mando-lhe um beijinho. Ela deixa de olhar com espanto e um puta ar de realeza. Exalo em negação e descanso as mãos nos joelhos. Olho em torno de mim e sinto vontade de cagar. Faço o trajeto para a saída do ônibus entre as mesmas sacolas e muletas e estou na rua novamente. Vou até o primeiro beco e cago numa caixa. Volto ao ponto com a caixa na mão e observo o movimento. Entro no primeiro ônibus a aparecer. Converso com o motorista sobre o motor e a mecânica do veículo. Pago ao cobrador e me sento. Vejo no meu relógio e são cinco horas da tarde. Às seis tem uma rota legal. Estudo o bairro e me situo. Deixo a caixa no ônibus, saio quatro blocos depois e atravesso a rua. Espero uns quinze minutos e lá está ele, o ônibus mais cobiçado do dia. Entro, ele está lotado e suado, do jeito que eu gosto. Me espremo até finalmente chegar ao meio e me deixo fluir nos movimentos do ônibus e o vai-vem dos corpos inertes de meus colegas passageiros. Zen.

-Guilherme Rocha

Thursday, January 25, 2007

A jovem e talentosa Beth Galleano e sua polêmica obra-prima

Beth rezava antes de dormir. Nada mecânico como pai nosso ou ave Maria, apenas travava um rápido e amistoso diálogo com Deus. Raramente pedia algo, normalmente agradecia. A despeito de ter sido batizada e ter feito a primeira comunhão, há anos não aparecia à missa do Padre Juan Ortiz que já demonstrava sinais derradeiros de vida, mas ainda encontrava força na alma para manter a severidade no controle de seu rebanho. Seu sotaque castelhano, aliado aos pesados traços da senilidade, conferiam a ele mais autoridade. Reclamava a ausência de Beth com sua mãe, Dirce, mas não havia argumentos capazes de trazer de volta a “ovelha desgarrada”, como dizia o pároco.
Aos 21 anos, Beth chamava a atenção de homens e mulheres pela exuberância de suas formas. Uma bela morena de longos e ondulados cabelos negros, olhos castanhos e, sobretudo, não havia como não notar sua extraordinária bunda arqueada, vibrante, firme e bojuda. Era a própria Dirce numa versão bem melhorada, pois a mãe havia sido cobiçada na juventude, e ainda guardava traços delicados e formas generosas. Era, sem dúvida, uma mulher gostosa chegando aos 50 anos. O casario assobradado, com piscina e jardim aos fundos, abrigava apenas as duas mais a velha empregada de duas décadas. O pai morrera jovem quando Beth tinha apenas dois anos. Morte súbita, do coração. Era um bom homem, hábil comerciante que deixou à mulher e única filha renda suficiente para sustentá-las com folga e conforto por mais duas gerações. Mas Dirce estava longe de ser dondoca e acomodada e tinha renda própria, dava aulas de reforço de português e geografia para alunos da quinta à oitava série.
Beth fazia letras na universidade federal, gratuita, entrou com louvor e boas notas, e sonhava abertamente em ser escritora. Perseverante e abnegada, logo no primeiro ano do curso tratou de publicar um livro de poemas, obviamente bancado com recursos próprios, mas que recebeu elogios acalorados de Rubens da Costa Braga, professor de literatura, famoso por suas acidez e mau-humor. As más línguas diziam, sempre à boca pequena, que a crítica elogiosa do mestre, publicada no jornal universitário, não tinha outra razão senão impressionar Beth para, como isso, quem sabe, ter uma boa chance de transar com ela. Mas o boato ainda mais capcioso dava conta de que a jovem Beth havia conseguido tal resenha favorável unicamente porque já havia deitado com o rabugento professor. Davam como certa essa abjeta troca de favores.
Por dois anos o boato fez mais sucesso que o livro. Beth não se preocupou em desmentir nada pois, esperta como era, notou que sua obra primeira “Sonhos de Borboleta” fora a mais comentada no campus durante todo esse tempo. Os calouros a admiravam e temiam, apontavam para ela e cochichavam. Gostando ou não - muitos sequer liam - a curiosidade fez com que a primeira impressão de 500 exemplares fosse esgotada nesse período. As garotas, mais terríveis, tratavam de apimentar a trama. No último ano de Beth no curso, corria uma versão pitoresca de que ela havia feito um pacto com o demo para que seu livro fosse um dos mais lidos, e comentados, do curso. De resto, Beth até que levou uma vida universitária bem normal. E de tão feliz da vida com o sucesso polêmico de seu livro nem quis escrever mais nada e apenas desfrutou de sua efêmera fama torta. Afinal, fama, reta ou torta, sempre traz proveitos.
O fato é que logo após a formatura Beth foi procurada por um executivo da área editorial. Era um sujeito de uma editora respeitada e bem conhecida. E como bom homem de negócios foi direto ao ponto. “Queremos publicar seu livro”. Beth não fez rodeios. “Quanto levo nisso?”. “Cinco mil reais no ato e mais 20% das vendas. Vamos fazer uma tiragem de cinco mil exemplares para fazer um teste nas capitais do sul e sudeste”. Negócio fechado. O livro saiu e, na última capa, o eloqüente texto lustroso de Rubem da Costa Braga destacando o talento prematuro de Beth e a delicadeza idílica dos poemas. Uma revista semana fez a crítica favorável. Tudo arranjado pela editora. As vendas foram impressionantes em se tratando de livros de poesia no Brasil. Em seis meses, quase três mil exemplares comercializados. Beth comentou com o executivo de seu sucesso na universidade por conta dos boatos. E contou, com detalhes, tudo o que inventaram dela. Os olhos do executivo brilharam. Um mês depois pipoca na imprensa: jovem e talentosa poeta Beth Galleano bancou a publicação de seu livro trabalhando como prostituta de luxo. Daí pra frente, foi programas de tv, entrevistas, palestras e convites para posar nua em revistas masculinas. “Sonhos de Borboleta” está na décima segunda edição. Vinte e cinco mil exemplares vendidos. Sucesso editorial. Beth guarda, contudo, uma frustração. Não pinta inspiração para escrever o próximo. Na verdade, não tem tempo. Reza diariamente para conseguir escrever um romance. Mas antes precisa pensar que tipo de boato vai espalhar.

por Cass

Saturday, January 20, 2007

II
Um milhão de formigas, algumas mortas de tanto cansaço, nada na xícara de café numa celebração na piscina escura de bordas brancas de porcelana. Fumo o último cigarro e me despeço da escrivaninha enquanto aprecio uma marchinha do meu já saudoso computador. Hora do ultimo banho no meu banheirinho de ladrilhos azuis. As lágrimas se misturam com a água que cai em mim, poucas de tristeza, muitas de adeus. Escolho a calça com cuidado, e a camisa com conforto. Tênis velho, se usar um novo ele pode se perder e ainda quero que eles calcem pés que ainda vão se divertir. Não tanto como eu e o meu tênis velho. Escrivaninha novamente, alguns livros, mais um cigarro clemente que me implora mais alguns minutos de despedida. Carteira com todo o dinheiro do mundo, chave do carro, bilhete de aviso e saio. Com o cigarro na boca. Um último luxo nada fraternal pra quem vai sair pela porta e não voltar mais.

Meus olhos vagam pela cidade iluminada com a curiosidade de uma criança. Os detalhes nunca me pareceram tão vistosos: um velho mendigo mastiga um naco de fumo, prostitutas de sobretudo abrem e fecham, mostrando a vergonha de seus corpos adiposos, o café de todas as noites serve mais uma xícara pela garçonete azeda e mal-comida, os meninos de sempre com seus malabares de madeira podre esmolando nos sinais. A cidade pulsa em seu desgosto cotidiano, e, pensando nisso, sorrio com o canto da boca, e digo baixinho – acaba-se hoje, em grande estilo.
III

Meses e meses de preparação. Muito dinheiro. Uma lista enorme e seleta de convidados. Captação das mais diversas drogas do mercado: cocaína, mescalina, muitos ácidos e até um pouco de heroína da áfrica do sul. Uma encomenda de caixas de cigarro digna do wall-mart. Vinhos, conhaques, toneladas de latas de cerveja, litros de whisky, pipoca, bolos, carnes, ovos e caixas e mais caixas de um sortilégio de anfetaminas. Todas coloridas e dispostas em um grande vidro de mms. O que se mostrou mais difícil foi a elaboração da lista de regras, sobretudo as que legislavam os possíveis desmaios e tentativas de sono. Isso poderia arruinar toda a noite secular. Optamos por controle aversivo máximo – um capanga muito bem pago e com um elaborado plano de fuga, andaria com sua metralhadora giratória pronta para crivar de balas o primeiro indivíduo que dormisse, o que acabou lhe rendendo uma razoável eliminação de desafetos a seu bel-prazer.
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Mateus Souza (mais um pedaço do texto anterior)

Pernoite no Lixão

Enquanto as cores estão despertas, um bairro fétido e escuro acoberta grisalhos.

Jose o corvo e seu tridente cobertos em lama. Lixo acoplado, doces grudentos, sucrilhos molhado, uma casca de banana. Pedaços de pôsteres na boca de um cachorro, seis baratas apressadas. Cartas e canetas, pilhas usadas e latas de sardinha. Um bar inteiro. Pneus e foques de dengue. Sacos plásticos acolhem velhos sem onde dormir. Um relógio quebrado. A vértice de um fusca enferrujado. Um sofá destripado de suas molas. Alguns meninos cheirando cola. Ilha das Flores. Ratazanas românticas. Famílias inteiras em um barraco.

Pernoito na carcaça de uma kombi. Acordo e mastigo uns grãos de café. Fumo um baseado com um pivete das latinhas e vou à busca de um cigarro. Em meio de uma diarréia eu vejo um maço de cigarros. Com a ajuda de um graveto, pesco a caixa e a abro. Resquícios de bosta na ponta de um cigarro. Rasgo-a. Acendo o cigarro e o passo ao pivete. Acendo o outro. “Estou procurando um disquete”, digo. “Tipo cd?” pergunta. “Não, disquete. Tipo cartão”. “Boa sorte” diz e vai embora. Decido ir à busca. Vasculho pilhas de sacos fechados atrás de algo que poderia ser de minha casa. Uma hora depois encontro uma revista de assinatura do meu bairro. Elaboro um plano para cobrir um raio de 10 metros em torno da revista. Tomo um LSD. Mexo e remexo no lixo. As cores me distraem. Evito restos de comida. Lixo não é muito asqueroso, o cheiro de morte é que é. Comida podre. Cães e gatos gastos, mortos e decadentes. O ácido perfuma as fezes. De repente me sinto em casa, pois encontro um tolete como os meus. Faço amizade com ele. Fumo um cigarro. Encontro um cinzeiro quebrado lá de casa. Encontro bagas de baseados fumados. Levo o tolete e buscamos pelo disquete. Encontramos um saco do Bompreço com papéis amassados. Podia ser meu. Abro e o encontro. Celebro no pique do ácido. Ponho-o no bolso e saio do lixão. Atravesso a rua e entro num boteco. Peço um cigarro e tomo uma cerveja. Sento o tolete na cadeira ao lado. Confiro novamente o disquete. É com certeza o meu. Vou pra casa e abro o conteúdo do disquete. Uma foto de uma gostosa. E que gostosa. Bato uma punheta, tomo um banho e vou dormir. Ainda bem que encontrei o disquete.


-Guilherme Rocha

Wednesday, January 17, 2007

Noite Dessas...

Eu a conheci em algum desses momentos de bebedeira onde tudo que conseguimos lembrar são alguns flashes sem ligação direta entre si. Ela parecia estar mais bêbada do que eu pelo que me lembro e chegou assim, sem mais nem menos, tudo o que queria era um cigarro. Eu lhe dei o último com uma certa relutância, mas se soubesse que nos tornaríamos tão grandes amigos eu teria lhe dado todos os cigarros do mundo.

Sentou-se ao meu lado, eu fechei o caderno onde estava rabiscando algumas idéias para um possível conto ou romance ou poema.

– O que diabos você faz escrevendo por aqui uma hora dessas?

Estávamos em Tambaú, próximos ao busto do almirante Tamandaré, em João Pessoa. Era uma noite comum de um final de semana qualquer, algumas pessoas batiam papo, outras namoravam, outras simplesmente caminhavam, passando o tempo, no entanto apenas eu escrevia. Havia comprado uma garrafa de vodka vagabunda e um maço de cigarros baratos, queria ver se encontrava alguma inspiração para escrever alguma coisa com mais de cem páginas que realmente valessem a pena, estava sozinho e triste e muitas das minhas angústias acabavam indo em direção ao papel. Respondi-lhe apenas que era poeta, estava tentando fazer alguma poesia sobre vodka vagabunda e cigarros baratos.

– Então você é uma porcaria de poeta – Ela falou e eu achei aquilo muito engraçado.

– Você está mais do que certa – falei –, eu sou mesmo uma porcaria de poeta e não conseguiria falar de amor mesmo que quisesse.

Ela me olhou com uma expressão bem séria e depois caiu na gargalhada.

– Então eu não sou a única com problemas aqui, né?

– Como?

– Eu também não tenho muito o que falar do amor... Você quer sair? Eu tenho um baseado aqui, a gente poderia fumar, que tal?

Eu achei a idéia realmente interessante, se tinha alguma coisa de que eu precisava naquele momento, com certeza era fazer a cabeça. Havia começado a fumar nos tempos da faculdade, no entanto não costumava fazê-lo com pessoas desconhecidas. Mesmo assim aceitei o convite.

Andamos pela orla conversando como se nos conhecêssemos há anos, ela me contou que era estudante de jornalismo pela UFPB e não suportava o maldito curso, que qualquer dia desses iria acabar se embucetando e mandando tudo pra puta que o pariu! Pegar uma mochila rabugenta, pôr nas costa e pegar o beco pra qualquer lugar ou lugar nenhum, era uma personalidade forte a dela, eu me admirava principalmente por vir de uma garota tão nova e tão bonita. Juntos secamos o resto da vodka, o que foi suficiente para ficarmos altos.

Sentamos num lugar deserto e seco para preparar a estaca, ela pediu pra que eu sentasse e abrisse as pernas, ela se encolheu no meu colo e eu a protegi do vento enquanto ela acendia o fumo. Depois que ela acendeu fumamos e ficamos bem à vontade um com o outro, agora éramos cúmplices. Deitamos na areia e ficamos viajando nas nuvens, ela era do tipo que ficava achando tudo engraçado quando estava com a cabeça feita, me mostrava as coisas que eu só conseguia ver depois de algum tempo. Coisas que eu nunca imaginaria conseguir ver se formando nas nuvens:

– Cara, olha lá o pato Donald trepando com o chapolin colorado – Começava a gargalhar histericamente.

Eu olhava por um tempo sem entender, sem conseguir visualizar e então do nada conseguia ver. Uma nuvem com o formado do pato Donald por trás de uma nuvem parecida com o Chapolin de quatro, daí começava a rir com ela, ríamos cada vez mais e mais alto. Ela ainda me mostrou um falcão, um fantasma com a boca aberta querendo nos devorar e um smiley triste, eu a mostrei um seio gigante, uma cruz torta e um índio com um cocar de penas na cabeça e um chocalho na mão. Ele parecia dançar em algum ritual shamânico. Ficamos um tempo em silêncio, fazendo reverência ao índio que ia se desfazendo lentamente no céu até que ela se levantou como se tivesse acabado de ter alguma revelação divina e começou a tirar a roupa, eu fiquei um pouco nervoso, ela era uma garota muito bonita e o seu corpo era perfeito.

– Vamos dançar – disse com naturalidade tirando o sutiã e a calcinha –, vamos, tire a roupa e vamos dançar em homenagem ao índio e a essa noite...

Eu me sentei, estava tonto e começando a ter uma ereção. Precisava de um tempo.

– Vamos, droga, antes que ele vá embora! – falou apontando para o índio.

Eu finalmente me levantei e comecei a me despir, estava frio e as minhas coisas estavam com a metade do tamanho, senti um pouco de vergonha, mas passou assim que fiquei completamente pelado. Ela segurou em minhas mãos e começamos a rodar e pular em círculos, gritando palavras sem sentido e girando sem parar, fechava os olhos e gritava, grunhia, erguia as mãos ao céu, ao mar. Depois de um tempo comecei a sentir uma espécie de calor me invadindo e uma euforia crescente. Nada existia naquela hora, nem eu, nem ela, nada. Gritávamos cada vez mais alto, ríamos histericamente e improvisávamos coreografias sem nenhum sentido. O mundo poderia explodir naquele momento, nós não estávamos aqui, estávamos no Sol, no todo, no nada. Éramos dois lobos uivando na noite de lua cheia, não havia frio, não havia nada. Foi então que bateu uma tonteira e caímos sentados na areia, tontos, suados e eufóricos. Ela gargalhava entorpecida e eu tentava acompanhá-la sem nenhum fôlego.

– Vem, vamos dar um mergulho... – falou ofegante e correu para o mar sem esperar nenhuma resposta.

Ela é louca, pensei sorrindo enquanto me levantava com a bunda cheia de areia e corria para acompanhá-la.

A água estava uma delícia, fria, mas não gelada, e o mar estava calmo. Mergulhamos e nadamos como duas crianças afoitas na piscina, ela me abraçava e gritava nos meus ouvidos que a água estava uma delícia, eu respondia com uma gargalhada e continuávamos nossas brincadeiras aquáticas. Depois de um tempo cansamos e começou a bater um frio, ela chegou bem próximo, eu senti uma nova ereção e tentei recuar um pouco.

– Não precisa se afastar, eu também estou excitada – falou.

Meu coração acelerou um pouco, ela enrolou seus braços no meu corpo e me deu um beijo molhado e salgado, depois se afastou.

– Vamos, poeta, ta muito frio e precisamos nos secar antes de nos vestirmos.

Eu sorri e falei brincando que preferia esperar mais um pouquinho até que as coisas melhorassem pra o meu lado. Ela sorriu e disse:

– Acredite, não é o primeiro pau duro que eu vejo na vida.

Sorri e saímos da água. Ficamos pulando um pouco pra evitar o frio e secar mais rápido, contudo dessa vez eu me sentia tímido, ela parecia não se importar. Nos falamos pouco e depois vestimos nossas roupas. Já era alta madrugada e eu não teria ônibus pra casa. Ela falou que morava ali perto e ainda me chamou pra ficar lá com ela até amanhecer o dia, mas eu preferi ir embora e ver o que acontecia, ela pegou minha caneta e rabiscou um número de celular.

– Quando precisar de uma louca, pode me ligar – Falou – Além disso, te devo um cigarro.

Eu fiz que não com a cabeça e a abracei. Nos despedimos e eu fui caminhando pela avenida Epitácio Pessoa com as mãos no bolso e pensando na loucura daquela noite, a avenida estava quase deserta àquela hora e eu estava sem cigarros, eu sempre detestei me encontrar sem cigarros quando estava nessa situação e resolvi procurar algum fumante a quem eu pudesse pedir um, a solidariedade entre os fumantes beira o socialismo. Sentei em um ponto de ônibus e abri o meu caderninho surrado, não demorou muito e começaram a chegar pessoas, uma delas estava fumando e eu lhe pedi um cigarro. Logo, eu também estava fumando.

Peguei o papel com o número e lá estava: “Alyne, Lyne mesmo poeta.” Seguido do número dela. Nós ainda nos veríamos muito outras vezes aquele ano e juntos aprontaríamos as putarias mais sórdidas que o meu diário hoje registra, mas isso são outros miúdos...

Roberto Denser

Tuesday, January 16, 2007

Selvagem

Eu me imagino no meio de uma região selvagem
cercado por grandes árvores, eu quero ir à loucura.
Eu imagino o mau-cheiro da carne fresca recém matada.
Eu sinto ela sendo rasgada dos ossos enquanto a mordo com meus dentes.
Trilhas de sangue quente no meu rosto e no meu peito
Eu fico selvagem e colido no armário
Pinturas rasgadas da parede
Eu vejo um criatura peluda e nervosa no espelho antes dele quebrar
Televisão, arte e música nos domesticam
Chutando todas as portas, por dentro e por fora
Dinheiro é queimado na imagem de arte iluminada
e forma um fogo elevado
Eu me mantenho quente e cozinho um esquilo atropelado,
escondido nas sombras,
de antigas entradas esculpidas,

selvagem.

- Guilherme Rocha

Sunday, January 14, 2007

Uma noite no Teatro

Partindo da fachada, uma camera entra lentamente em um teatro. As cadeiras estao lotadas. Ha um burburinho na platéia. O ator, Jorge, sai de tras das cortinas e entra no palco.
Ouve-se aplausos.
Jorge puxa um banco e se senta.
Silencio..

Jorge fala em voz alta, "se nos construirmos um prédio no lugar da praça pública nos com certeza teremos problemas."
O burburinho concorda
O silencio volta. Uma voz tosse.

Sem dar atencao aa plateia, Jorge tira um caderno do bolso e comeca a escrever.
Passado um tempo, um homem finalmente se levanta para questiona-lo... "ei! ... o que voce esta escrevendo?"
E Jorge fala, "É pessoal."
Ouve-se um burburinho nervoso.

Jorge continua escrevendo ateh que o mesmo homem resolve invadir o palco.
"Eu quero ver", diz ele.
Jorge - "Eu disse que é pessoal"
"Ora porra, eu paguei pelo que entao?", o homem tenta pegar o caderno aa forca. Jorge evita.
Homem - "Me dá isso que eu quero ver"
Jorge se levanta e faz o homem tropecar em seu banco.

Generaliza-se o desagrado. A platéia grita com Jorge e invade o palco, Jorge consegue sair correndo e escapa.
Uma voz diz "Vamos pegar ele"
A platéia excitada pega o homem que iniciou a discussão e lhe enche de porrada.
Estendido no chao, o homem chora de dor. O barulho gradualmente diminui e todos eventualmente saem do teatro.

Um membro da platéia, acompanhado pela mulher diz satisfeito, "quanta paixão! isso sim eh dramaturgia!" e recomenda a peça para seus amigos.

-Guilherme Rocha

Thursday, January 11, 2007

À LUZ DA RUA

Era um local de passagem. Aquela rua calçada com pedras irregulares, longa, — quase reta, que dava na praça e margeava o rio São João, era o nosso local de passagem. Mas o centro de tudo era mesmo a casa grande. Aonde íamos para brincadeiras e gulodices. A casa grande, a “prainha”, o “praião”... Nossas férias eram feitas dessas coisas boas. Todos os anos. Há doze anos. A peregrinação em fevereiro ou março era sempre parecida: A BR-101 aquecida pelo verão, os engarrafamentos intermináveis, as cidadezinhas da Região dos Lagos a nos trazer sempre encanto, quer dentro de um ônibus, quer dentro de um carro, não importava. E a rua calçada com pedras irregulares, longa, — quase reta, que dava na praça e margeava o rio São João sempre foi o elemento que mais me marcou.

Quantas madrugadas por ela passamos? Quantas vezes tiramos os sapatos só para sentirmos o chão gelado, coberto pelo relento, sob nossos pés descalços? E aquelas árvores? E os postes com suas luzes avermelhadas sobre os casebres coloniais e nos cobrir de nostalgia e uma saudade misteriosa em pleno carnaval do Brasil? Foram muitas as visões daquela rua a nos guiar de volta à casa grande, onde jogávamos nossos corpos suados e bêbados à frente de algum ventilador velho e barulhento. Vezes sem conta. Momentos felizes e de extrema paz. Aquela rua quase reta.

Mas um dia parti para uma nova jornada: resolvi eu mesmo morar naquela mesma rua Andrade Silva. Morar além de uma das muitas pequenas portas que víamos, sem sequer nos darmos conta de que por trás delas vida havia. Então levei tralhas. E na madrugada que sucedeu o dia da chegada, cheirando poeira e inseguro quanto ao futuro, resolvi sair mais uma vez para a nossa rua. Mas eu me vi um invasor. Alguém que se colocou entre o sonho e a realização, entre o imaginado e o concreto. Eu olhei a rua com estranheza e soube que as coisas nunca mais seriam como antes.

Vitor Souza

Tuesday, January 09, 2007

Inventariar

nada existe

nada resiste ao tempo que quis passar

voam nuvens

embaralham o céu que faz chover

colho uma flor em seu jardim morto

e no inventário da vida herdo os seus venenos

as vezes um sopro

as vezes um cheiro

faz-me lembrar

e nas lembranças me perco

anestesio

já não quero

mergulho numa piscina rasa

meus joelhos deslizam nos ladrilhos lisos

num soluço alcanço sua boca

e no seu beijo não ouço nada

torno-me sentidos

colho dos seus olhos uma lágrima

do jardim a flor

da sua boca o sorriso

e de mim não colho nada

fico no ressecamento dos meus órgãos

suspensa

num chão que não posso pisar

e acordo no susto da onda

que me impele

impedindo-me de passar

Afogo-me no oceano vasto dos seus sonhos

Já não existo

Sou só imaginação

Outrora seguia alguns rastros

Hoje já não vejo as pegadas de suas areias

Sou um susto enfim

Um suspiro no fim

No fim do caminho

No vento turvo

No erro fundo de suas carnes errantes

Tremulo no seu gesto

E a essa altura inexisto

Sou sua imaginação

E me viras em páginas brancas

Onde canta um pássaro morto

Vejo edifícios a despencar

Em plena praça pública nasce um jardim que morre depois da morte

Mergulho num aquário de sons

No vácuo profundo que ressonante eleva sua figura

E eu já não vivo.

Num vital de estrelas de esteta beleza

E o som dos ouvidos surdos

Soam seu pranto

Lastimável

Anseio desprender-me, renascer numa grande festa de reis

Espero pelo dia

Enquanto isso reflito-me no cinza espelho de seus olhos

Não existo

Sou imaginação.


Nanah Gracia

Em homenagem a D.

Você nasce, diz que ama, dói e morre. Há quem me diga pessimista, há quem me diga realista, mas eu, eu cansei de me dizer, eu me arrasto pela vida, absorvendo o tédio-de-cada-dia pelas plantas dos pés. Já me disseram que o maior minuto de sua vida é o que antecede a morte. É aquele retrospecto: infância feliz jogando bombinhas na casa de vizinhos, brincando de médico com a irmãzinha do amigo incestuoso, correndo com mais alguns menininhos atrás de uma bola suja. Ai vem a adolescência, primeiras competições, rebeldias, shows de rock, e a paixãozinha boba. Espinhas na cara, punheta e revistas eróticas. Juventude madura, politização, passeatas, namoros sérios, orgias, bebedeiras, drogas, um pouco de trabalho, um tanto de faculdade, e pronto, vida adulta. Casa, carro, filhos, horários, happy hour, amante, cachorro, viagens de férias, velhice, visita de filhos, morte.

Esse minuto funesto me persegue a cada segundo. A anormalidade de minha vida consistiu no meu incômodo cotidiano de experimentar o caminho natural das coisas. O exército ruma à Normandia, e você assiste de camarote. Não dá um tiro. Fica em sua poltrona comendo biscoitos de gordura hidrogenada e bebendo coca-cola. Mas o problema não é espectar, é saber que é expectador. É ver a teia a ser tecida pela aranha cabeluda e sorridente, que de quando em quando, libera um veneno de alívio.

A vida de um sujeito pode chegar a tal ponto que a idéia de morte, longe de ser alívio, é tédio. Sua libido escorrega montanha abaixo, seu corpo mal pede comida, e quando se arrasta, é até as microondas da televisão de cozinha, onde os filmes hollywoodianos são mais baratos e comerciais, mais tragáveis. Seus telefones param de tocar, seu carro enferruja e seus pais vão à Europa e te mandam um postal de ano em ano.

Da janela penso que essa é a vanguarda da geração que bate à porta. Nem o prozac salva. Somos um câncer com um ego expandido, que a tudo avalia e encolhe, na incompatibilidade de te trazer algum prazer. A dor sempre esteve aí, mas nunca foi tão inteligente. Hoje ela conta com bilhões de neurônios que mal são apagados com álcool, sexo ou drogas. É uma parte da fisiologia, um novo apêndice que cresce metros e metros por entre a massa cinzenta, até absorver todo organismo. Olá, seja bem vindo, essa é a minha gang, meus comparsas, meus filhinhos do caos, meus pós-apocalípticos. O novo mundo já foi descoberto, o estado já é laico, a Alemanha já foi vencida e a guerra fria acabou. O que sobrou pra nós? A Paris Hilton.

- soldado john, como foi libertar um pais das mãos de um ditador sanguinário?
- sei lá, me deu vontade de dar uns tiros e vim pra cá me divertir. Foi bem legal, consegui até por dois desses caras queimadas para se comerem aos berros de alaaaaaaaaaaaaaaah!

Na penumbra de letrinhas pretas, borro a paisagem de uma geração que nem se reconhece. Geração? Eu sou um. Você é outro. Os universos entre nós nunca estiveram tão distantes. A cova nunca foi tão profunda, e o caixão já apodreceu. Todos de olhos vidrados e esbugalhados na tela brilhante! Avante! Ainda temos que descobrir o mistério que levou a Britney Spears a se separar do Justin! Como viveremos sem isso?

Uma carreira, duas carreiras e um vislumbre de lucidez, uma vontade de me juntar aos vietnamitas e enfiar balas em cabeções americanos com cara de budweiser. Vontade de uma causa, de um livro vermelho, de uma cartilha de guerrilha, de um movimento pacifista neo-hippie, vontades voláteis. Mais uma carreira. Shhhhhhhhhhhh. Vontades voltam e somem com as trilhas mágicas do pó da cinderela. O golden gate se abre e se fecha em intervalos suficientes para que você chegue a alguns milímetros de atravessá-lo, mas nunca consiga, nunca.

Meus olhos já secaram e andam rijos. Não existe motivo de choro. Não existe a dor melancólica dos poetas, o coração partido e a paixão idealizada... Existe apenas essa dor seca que contorce os seus intestinos e reviram seus bagos, e só. Ela é seca, ela não chora. Ela pede leite condensado e um pouco mais de musicas do último segundo e de imagens re-imagens pré-imagens. Nada se inventa. Nem se cria. Transforma-se? Mentira. “Acredite se quiser”.

A mudança é um sonho sórdido, pois se ampara na idéia de que alguma coisa melhora. Impossível. Se uma coisa melhora, ela passa ontologicamente a adquirir o status de pior. E você quer mais e mais. E mais de nada. Porque nada vai saciar a sede. Inconformado, rio do pote seco. Uma risada maligna e dolorosa, de quem não aceitou a vida, mas não quer mais lutar por ela – e nem quer o trabalho de desistir. Só o vazio, um pianinho ao fundo e um copo de rum.

Aos beliscões tentam me reanimar ‘vamos lá, vai ser bom’. Bom? Nunca é bom. É ruim porque é vazio, maquiado, e acaba. E o sabor do batom se desfaz à primeira olhada no espelho. Não sei se preciso disso. Não sei se não preciso. É um momento vivo onde existe a constatação de que estamos completamente mortos e ressequidos, trocando farpas humildes em mesas de bares mexicanos.

Vamos falar de amor. Pernas abertas em luxúria, cacetes armados, sussuros indecentes e gozos. E ai? O que existe depois disso? Passagem pra eternidade? Não. Pro inferno. O apêndice te cutuca pra lembrar que acabou e esvaziou-se. Secou, morreu. Até a próxima. Ereção. Ejaculação. E a próxima e a próxima. Um dia seu pau não sobe. Tome remédios e continue assim, vamos longe!

A fé é uma experiência fantástica. Ela irrompe das dialéticas de beneces e perdão e fulmina o peito com a paz. A paz de ver o tumor e sorrir. Já vi um velho pastor à beira da cama sorrindo ‘vou encontrar meu criador’. Mesmo que ele não o tenha encontrado, ele viveu. Alienação? Não. Vida. Não vida é respirar o ar tuberculoso da cidade que te entope as entranhas de um lodo preto que não se lava.
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Mateus Souza


Monday, January 08, 2007

Momentos De Outono

1.

Ela estava em pé. Eu a deixava falar com desenvoltura sobre tudo. Meus olhos acompanhavam as nuvens que caminhavam entre seus cabelos soltos que balançavam com o ar frio de uma manhã de outono. Ela fez uma pergunta tola que desisti no mesmo instante de responder. Parecia que seus lábios lambusados de batom vermelho pronunciavam, assim como seu corpo, um significado especial que eu desconhecia. Se não houvesse mais nenhuma pergunta, eu talvez pudesse descobrir o que se passava, e foi pensando nisso que acendi o cigarro e a olhei mais uma vez com meu rosto pálido.

2.

Uma risada seca e áspera. A boca abria tanto que caberia uma bola de bilhar entre seus lábios. Ela gargalhava sob o efeito do vinho barato e ajeitava seu quadriculado cachecol, seguindo a direção dos carros. Fiquei em silêncio por uma meia hora, bebendo o vinho que restava na garrafa, adimirando a coloração desbotada de sua grande garganta. Ela titubiou na calçada e ergui meu braço para segura-la. Hesitou por um instante e seu rosto tomou um contorno sério e preocupado. Depois voltou a rir acreditando que o motivo de sua risada não era o vinho, mas sim sua suposta queda que detive com as mãos.

João Pedro Fernandes Lopes

Sunday, January 07, 2007

Com ouvidos.

Você sabe quando eu digo que nada mudou de uns tempos pra cá? Bem, eu estou dizendo isso o tempo todo e muitas vezes é porque não tenho mais nenhum assunto de que se valha falar. Eu acho que não tem nada a ver, mas me sinto triste pelo fato de não conseguir um pedaço da atenção alheia ao meu redor, estou sempre no canto meu querido, sempre no canto.

Sabe, tinha um rapaz, é um desses caras normais que sempre me deixam tristes por saber que eles vão continuar na mesma, e isso me dá certa pena desses tipos. Só que eles são tremendamente irresistíveis e eu sempre dou atenção pra quem me diz alguma coisa tipo:"oi, como vai, posso sentar aqui" e que não seja feio, se é que você me entende.

Ele, apesar de ser um completo idiota possuia coisas que me faziam ficar até mais tarde naquele banco de praça escutando umas canções estúpidas que ele mesmo fazia, descobri um tempo depois que quando eu estava alta conseguia ficar ali um bom tempo, e já passavam das onze da noite.

Esse carinha tentou se matar porque uma idiota - mais que ele - deixou-o tristíssimo, se mandou pra outra cidade com outro cara e coisa do tipo e nem disse adeus, eles tiveram um tremendo de um caso e a vaca simplesmente se mandou. Nesse ponto eu o acolhia e ele curtia isso, acho que é por isso que estávamos ali mesmo, juntos e em silêncio, nem o sexo ou coisa que o valha nos matinha unidos, acho que aquela merda toda era a cola.

Duas semanas pra frente eu tive de dar o fora e tentar a vida na faculdade, já estava bem melhor, mas de vez em quando eu pensava naquele pobre coitado, sempre tenho a sensação de que as pessoas não sabem se cuidar se eu não tiver do lado delas dando um apoio, ledo engano. Mas mesmo assim eu lembrava bem do rosto bonito dele e de algumas canções.

Me disseram que ele fora pra Europa, sortudo de merda, mas seria melhor mesmo. Ainda estou aqui.


Tainá Silêncio do Amor

Saturday, January 06, 2007

Saudade

Muitos foram... Outros tantos voltaram. O ir e vir incessante dos transeuntes nem é combustível para esse passar de horas apressado. Mas o tempo corre. Com a pressa dos que muito querem viver. Ela pensa. O céu, a manhã, esta luz. Um perfume suave, amadeirado. Avalanche de lembranças desabando sobre um peito já acostumado com certas coisas da vida. Susto: o tempo correu, apressado. Mais rápido do que os carros que cortam a Beira-Mar. Impaciente, urgente, aflito. Atrasado. A vida passou e, às vezes, Ana parece ter ficado para ver o bonde andar. Como agora.

Nessa horas, qualquer delicado bater de asas de borboleta ou uma suave brisa vinda do mar lhe parece o mais furioso dos furacões. Turbilhão de lembranças, memória de elefante, um tanto fotográfica. Mas aquele amadeirado... Ana hesita. Lembrando Dele, o que lhe parece é que Ele nem chegou a existir. Invencionice tola de quem deseja sentir apenas, como se a vida vivida ali não passasse de uma quase apagada impressão.


Gisele Amaral

Friday, January 05, 2007

Manifesto do partido desistista.

Um dia eu vou queimar o mundo. Ao som de uma sinfonia (a nona, óbvio idiota), vou esmagá-lo. Como um deus em perfeito juízo de completude e superioridade, vou pisar nesse esgoto e reduzir tudo em pó (cocaína, se possível). Na perfeita onisciência, vou saber de que é composto o nada, ou a idéia do nada, ou o indizível mal expresso no nada, ou nada. Vou violar as mocinhas rosinhas e virgens, fantasiadas de inocência com rostinhos angelicais e comportados vestidinhos de bolinha (sem calcinha, claro). Vou estripar velhos moralistas ancorados em livros grossos e complicados (manual de direito jurídico, vol.5, 24ª ed.), vou sapatear sobre o pseudo-metro-intelectual bêbado de razão e soberba (compre um na esquina mais próxima) que junta opostos e constrói frases geniais – ‘o homem pequeno é o maior dos homens’ - disfarce perfeito para seus paus pequenos; enfim, vou queimar o mundo, fazer duas carreiras, e ficar doidão.
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Mateus Souza

Thursday, January 04, 2007

FÁBULA DA ERA DO GELO

Gharbyronethar Smilovetrach Kanesh saltou do animal e pôs-se a correr. Mesmo sabendo ser a única alma viva no interior daquele frio vale, não quis arriscar. Escondeu-se entre um denso arbusto seco e o enorme paredão de gelo e acocorou-se: seus intestinos gritaram de dor e de alívio.

Ao se reerguer, rosto suado, pernas trêmulas, Kanesh se deu conta de que aquele havia sido o melhor local que encontrara depois de um dia inteiro de cavalgada para passar a noite. Mas já era tarde: Melhor que a área inteira fosse interditada pela Saúde Pública!

Tentou retomar sua montaria, mas percebeu que, naquele momento, lhe era impossível sentar. Segurou com força (e raiva) as rédeas do seu animal e prosseguiu a pé. Fracassara na missão que lhe fora confiada e até que não achou ruim completar o restante da jornada caminhando. Isso adiaria o cara-à-cara com os velhos...

O frio no interior daquele escuro vale era realmente de matar, mas ele não pôde deixar de se impressionar, a despeito de todo o seu mau humor, com a fantástica luminosidade das três luas que começava a refletir nas enormes paredes de pedra totalmente cobertas de gelo.

Kanesh era uma espécie de rei. Não o rei de uma monarquia na forma em que a conhecemos, mas um rei eleito em primeira instância pelo povo, e num segundo momento, por um conselho de “sábios”. Na verdade, essas verdadeiras “peças de antiquário” eram quem realmente governavam. “Feiticeiros”, grandes proezas metafísicas lhes eram atribuídas (embora isso nunca tenha sido provado).

A configuração política do mundo de Kanesh era mais ou menos assim: Durante a Segunda Grande Batalha de Todos os Reinos, os Bárbaros-do-Norte ficaram praticamente de fora. Tiveram sua participação, queimando cidades e praticando outras carnificinas, mas seu reino não havia sido atingido. Ao final do grande conflito, os outros reinos, arrasados e sem recursos, tiveram que lhes pedir ajuda. Então esses bárbaros, que de bárbaros não tinham nada, prontificaram-se a ajudá-los, emprestando dinheiro, comida e o que mais precisassem. A juros altíssimos!

A idéia dos Bárbaros era a seguinte: se a dívida não fosse paga até um certo prazo, ficaria impossível, nos anos posteriores, pagá-la, e uma dependência econômica eterna seria estabelecida entre o reino devedor e os Bárbaros-do-Norte. O plano dos bárbaros deu tão certo, que até mesmo os Reinos do Fogo, um conjunto de “repúblicas vermelhas”, que vivia de acordo com outros padrões econômico-sociais, teve de ceder aos caprichos dos bárbaros do norte, pois não puderam resistir ao bloqueio econômico a que lhes foi imposto pelos demais reinos da terra, submissos (por dívida) às vontades dos Bárbaros-do-Norte. Isso levou os vermelhos à queda, e suas economias, outrora fechadas para o resto do mundo, tiveram que se abrir.

Então, num belo dia (não tão belo assim, pois chovia torrencialmente), todos os reinos do mundo glacial passaram a professar, ao mesmo tempo, a Ideologia Verde, a lei do cada-um-por-si-e-Deus-contra-todos, o “modo de ser e viver” dos Bárbaros-do-Norte.

“Por que então”, pensaram os Bárbaros-do-Norte, “não criamos um modelo de economia onde todo mundo compre de todo mundo? Onde todo mundo venda para todo mundo? Sem fronteiras, sem regionalismos-econômicos, um único mercado, ideologicamente verde?”.

Mas esse novo projeto dos Bárbaros-do-Norte esbarrava logo em um pequeno problema: Como fazer com que pessoas de culturas diferentes, de costumes díspares, com traços culturais ímpares, consumissem um mesmo produto? A solução seria a de uniformizar também a cultura, através da imposição, da propaganda, do entretenimento e da manipulação. Não é necessário dizer que o padrão para essa nova cultura uniforme e global seria baseada no estilo de vida e costumes dos Bárbaros-do-Norte.

Gharbyronethar Smilovetrach Kanesh pensava sobre tudo isso enquanto ajeitava um canto para dormir:

“Um rei enrolado em molambos, um pau-mandado, isso que sou!”.

E xingou um palavrão para o vale silencioso enquanto amarrava seu animal numa moita:

“Se o reino miserável do leste da região selvagem não produz nem para si, como é que ele vai fazer parte desse mercado econômico mundial? Vai exportar o quê?”

“Se esse mesmo reino miserável não vende para ninguém, que necessidade um reino do próspero leste montanhoso terá de absorver sua cultura? Mundo cão! Filhos da puta do Conselho dos Sábios, iguais aos filhos da puta dos Bárbaros-do-Norte. Não tem diferença nenhuma. Fracassei em minha missão? Sim! Mas quem não fracassaria? Era um jogo de cartas marcadas”.

A missão a que Kanesh se referia, era o pedido de exclusão do seu reino de um novo projeto dos Bárbaros-do-Norte: a Área de Livre Comércio dos Dez Reinos, que visava à consolidação definitiva da supremacia dos Bárbaros-do-Norte sobre o mundo glacial, pois eles passariam a levar ainda mais vantagens em negociações econômicas.

“E agora nos ameaçam dizendo que sofreremos retaliações se não quisermos participar. Malditos!”

Motivado pelo ódio, Kanesh apertou os punhos e chutou com toda a força uma pedrinha pontiaguda que descansava aos seus pés. A visão da pedrinha voando para longe, batendo num pedregulho cinzento e deslocando-o momentaneamente do seu ponto de repouso, despertou em Kanesh seus instintos mais revolucionários:

“Chega de ser comportado!”, gritou, rosto voltado para o céu. Ergueu sua espada e preparou-se para dizer a frase célebre que o faria figurar nos livros de história como um mito da revolução. Mas de repente, ficou neurótico com a idéia de espiões anotando os seus passos e guardou a lâmina. Respirou fundo e disse baixinho:

“Hoje vou dormir sem tomar banho”.

Vitor Souza

Wednesday, January 03, 2007

O Rochedo

As ondas espancam as pedras do rochedo.
A ventania assola as pedras do rochedo.
A chuva como kamize se joga sobre as pedras do rochedo.
Rochedo fica intacto.

Vem a caravela e atira contra o rochedo.
As pedras caem rochedo abaixo afundando a embarcacao.
A noite vem,quer engolir o rochedo.
Se nao se apaixonasse por ele.

Rochedo vai embora junto com o sol,me pergunto para aonde vai sem sol.
Me ajoelho e rezo sobre as pedras do rochedo:Ele nao se importa com final de 'Copa do mundo`, fim de século, livros, bombas atomicas,guitarras eletricas, segunda-feira fria 3:45 da manha do meu coracao ou comboios noturnos atravessando amedrontados fronteiras sangrentas.
Rochedo è alheio à tudo,è esteril, ateu, dissonante-neutro e
acima de tudo, nao se importa se sou seu fa e gostaria de ser como ele.





Augusto Monteiro