Saturday, December 30, 2006

Um Bairro Cede

Um bairro cede. Desfaz-se. Mancebo concebe. Tabaco tosta.
Risca o muro ansiando motim. Mira o sítio. Cospe em seus farrapos pretos.

Homens armados escoltam seu consorte. Causa: vulgaridade traçada em praça pública.

Pasmem. A revolução evoluiu. Joviais e livres, poetas soldados brincam de mudar o mundo.

Um bairro se acende. Pés estrangeiros deslizam entre as ruelas.
Nadja sente pecado entre as coxas. Alcoolizada à noite faz-se fácil amar.
Segreda uma terna melodia para o agrado de Susy. Dançam coladas. Luzes as seguem.
Silhuetas lésbicas beijam-se em fricção.

Partituras voam à frente de uma criança.

Raquel, a puta mais bem servida da cidade chora escondida, mas logo engole suas lágrimas para bem acolher o prefeito.
O lixo amontoado faz dela o mais belo ornamento das esquinas.

Ela me manda um beijo à distância. Aceno e confirmo um jantar.

Ouço suas queixas. Faço-lhe agrados. Choramos em sintonia.

Nunca lhe dei flores, pois seu toque as faz murcharem.

Nunca disse que a amo. O romance lhe agride.

Nem em sonhos conheço seus pais.


Um velho sentado numa mureta observa o mundo. Seus olhos precisos sabem o que admirar. Mãos enrugadas descansam em seus joelhos.
De repente levanta e com a demora de folhas ao vento ele se desloca alguns metros até chegar a um banco, onde, uma vez sentado, volta a mirar o mundo.
Contempla o tempo.

O compasso é a marcha das ruas,
sombreadas pelos fados das varandas.
Onde flores sem foco enfeitam a noite, incolores,
fundidas na Canção Sem Fim.

Em qualquer lugar do seu mapa mundi,
sotaques distintos se misturam durante o dia,
e à noite se consomem.

Trovador do asfalto cante-me sua fome.
Ostente sua barba afiada, insetos e tudo,
Navegue as ruas buscando seu novo mundo.
Com o mais perfeito amor em um saco de beber
E rugas da história nos dois calçados furados.

Pois enquanto criaturas contextualizam palavras
Poetas vivem para poupá-las.

Um bairro cede, sucede.
Pais de família, orgulhosos, fazem a feira de natal.
E Nicolau ostenta seu tesão perto do pinheiro enfeitado.
Rendendo-se aos biscoitos deixados pelas crianças
e o leitinho que lhe dá idéias,
ele cede aos agrados do jovem malfeitor
que de pijama de bolinhos e ursinho na mão,
pede ao velho Nicolau para desafivelar seu cinto
para balançarem sinos de natal.

Cerâmicas pintadas cobrem as fachadas.
Límpida em história,
Encanecida em vida.
Azul e branco para os deuses.
Creme e cor-de-rosa para os banheiros
Enfeitando tapumes, esboçando passados.

Passado. Cedido. Desfeito.
O bairro.


-Guilherme Rocha

4 comments:

Vitor Souza said...

Muito legal, cara! Imagens alternadas que nos remetem a uma "cidade dos pecados". Texto que faz um crossover com aquele poema do velho. Romântico. Viajei legal!

Anonymous said...

É uma festa de fato!!!
muito bom mesmo guiga!:D
até mais garotão!

Anonymous said...

Cenas poeticas ou esporrentas:causam sensacoes laxantes ou do cu fazer bico.

Anonymous said...

Gosto do jeito que brinca com as palavras, as imagens e as sequências delas.
Eu sou sua fã.