Friday, December 29, 2006

"RECEBO PESSOAS"

Era o que dizia a placa na porta do casebre de praia do velho escritor. Hippies, existencialistas, micreiros, anarquistas, comunistas, malucos, ecologistas, pervertidos, mendigos, gente. A oca estava sempre aberta. O vinho barato sobre a mesa, a lingüiça fatiada na geladeira enferrujada pela maresia e o sorriso amarelo de anos de nicotina, recebiam os visitantes para um “papo cabeça” ou mesmo pra curtir um “som maneiro”, do velho Raul, na vitrola carcomida pelos cupins.

Dinheiro? Diziam que ele o teve, aos montes: publicara livros de sucesso, fora aclamado por crítica e público, estivera na grande mídia anos e anos... Mas naqueles dias vivia ele em condições de quase miséria, estava muito doente, embora o seu semblante revelasse uma realização pessoal notória e de fácil compreensão.

Certa noite apareceu na sua casinha um sujeito realmente maluco. Ele acenou para o velho escritor que o respondeu, com o mesmo sorriso cordial de sempre. O cara então lhe mostrou a língua, num gesto lascivo e sentou-lhe um porrete na orelha esquerda. O idoso caiu de joelhos, sem tempo para gritar, batendo a cabeça na mesa úmida e quebrando a garrafa de vinho barato, que exalou forte vinagre. O bandido o espancou e estuprou por toda uma madrugada, indo-se, pela manhã, saboreando o sol e cheirando o mar, suspirando como poeta. O velho escritor foi encontrado quase morto, segurava uma foto do Elvis, balbuciava um conto de Bukowski...

Nos poucos meses em que aquele homem de letras ainda viveu, sentado numa cadeira de rodas, com pincel fino apagou as reticências, mas JAMAIS retirou a placa da frente da sua casa.

Vitor Souza

6 comments:

oldharbourlass said...

triste e dolorido...

poxa vida, ainda acolho o véio escritor.

M.S. said...

pois
receber pessoas
é estar sujeito às suas
incompreensões

- texto bom
e doloroso -

Leandro Durazzo

M.S. said...

Gostei desse conto. Simples e direto o que dá uma força legal a narrativa.

Me relemboru algum conto que já li, mas não me lembro qual.

Gostei das impressões do assassino quando ele sai da casa. Bem poético, como a morte.

João Pedro Fernandes Lopes

M.S. said...

Há, há, há! Valeu pelos elogios, pessoal. Mauro, "quase morto" deve significar que ele estava num estado febril, delirante: "morto" num sentido espiritual e moral, capit?

Vitor

M.S. said...
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Anonymous said...

Caramba, primeiro me deu raiva do estuprador, depois, só me senti melhor pois mesmo com toda a desgraça o velho não tinha tirado a placa da entrada... Ainda guardava sua velha satisfação vital.

Me despertou sentimentos. Muito bom.