Quando a noite cai;
Atravessando a colcha de minha cama,
Os travesseiros encolhidos,
Aninhados como gatos pardos,
Preparados para sentir,
O gosto salgado dos olhos,
Dos mil transeuntes que matei durante o dia;
Eu sei,
Sei que venci.
E aquela menina,
Que brincava com suas orelhas,
Fugindo entre os carros,
Me recordando do sonho que tive,
No dia anterior;
Quando ela escapa,
Sai em sua disparada,
Sem ao menos olhar para trás,
Eu sei,
Sei que venci.
Todos os dias passam rápidos,
No elevadores ou nas ruas,
E o que sobra não convence,
Fica só o sabor da última coisa,
Só o barulho dos jornais voando,
Um berro ou um choro,
Os mesmos cães de sempre,
Ladrando no espelho,
Do banheiro público de uma loja.
Nestes dias,
Eu sei,
Sei que venci.
Mais um tapa nas costas,
Ou um aperto de mão,
O melhor cinismo que fiz questão de aprender,
Com os comercias de tv,
Com os velhos nojentos com quem cresci,
E tudo se repete,
Vai ganhando vida para morrer na sala de estar,
As mesmas mãos marcadas em meu ombro,
Todo dia,
A rotina me faz lembrar,
Que eu venci.
Meio cigarro à meia luz,
Na esgotada solidão que parece continuar,
Nas calçadas lotadas e barulhentas.
Sempre vindo em direção,
Como um carro descontrolado,
Prestes a explodir,
E não há como fechar os olhos,
Ou esticar as sobrancelhas ao firmamento,
Um Sábado se foi,
E não há volta,
Não há mais tempo,
Só posso dizer,
Dizer sem remorsos,
Que venci.
João Pedro Fernandes Lopes
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2 comments:
"E tudo se repete,
Vai ganhando vida para morrer na sala de estar"
muito bom!!!!
mas....
quem foi mesmo? =]
assina!
Provocador esse poema, João. Gostoso de ler.
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