Era uma casca, só podia ser. Corridas e mais corridas pelo espaço vazio, com sua acidez a escorrer por todas as fendas e frestas, transpiradas em angústias pelos meus poros, uma maldita casca. E lá estava eu, de novo, procurando um pouco de silêncio. Ele veio quente e doce. Escorreu suave pela faringe até tocar em meu estômago vazio. Estava entorpecido.
No estado em que me encontrava, não havia o luxo da ‘dose para relaxar’, qualquer gota já despertava a besta. Mas eu teria de sucumbir a ela - cedo ou tarde, sabia que ela venceria. E eu voltaria para casa embrutecido, com uma maldita garrafa de vinho doce e barato às mãos. Apalpando corpos frágeis pelo caminho à espera de minha grande presa.
As escadas tremem e riem de mim, as luzes ofuscam e riem, os quadros riem, todos riem, minha mulher não pode rir. Mesmo com todo o alvoroço das batidas de porta ela não acorda, ou finge não acordar. Deve estar com medo de mim (como sempre...). Está virada no canto da cama, totalmente encolhida... Alguma coisa atingiu-me naquela contorcida expressão dela. Minha mulher ri de mim. As luzes e as escadas podem rir, os cães podem, até os outros degradados da rua podem – minha mulher NÃO pode rir. A besta desperta, de um só golpe a garrafa se estilhaça sobre seu corpo dormente. Um gemido de dor desesperado. Ela nem se moveu. Provavelmente dormia mesmo. Os contornos envelhecidos de seu rosto começam a se desfazer em sangue. É uma linda cena. Ela não grita mais, não sei se está morta, mas é linda assim mesmo. Sento em minha ‘cadeira do papai’ e acendo um cigarro para observá-la...
No estado em que me encontrava, não havia o luxo da ‘dose para relaxar’, qualquer gota já despertava a besta. Mas eu teria de sucumbir a ela - cedo ou tarde, sabia que ela venceria. E eu voltaria para casa embrutecido, com uma maldita garrafa de vinho doce e barato às mãos. Apalpando corpos frágeis pelo caminho à espera de minha grande presa.
As escadas tremem e riem de mim, as luzes ofuscam e riem, os quadros riem, todos riem, minha mulher não pode rir. Mesmo com todo o alvoroço das batidas de porta ela não acorda, ou finge não acordar. Deve estar com medo de mim (como sempre...). Está virada no canto da cama, totalmente encolhida... Alguma coisa atingiu-me naquela contorcida expressão dela. Minha mulher ri de mim. As luzes e as escadas podem rir, os cães podem, até os outros degradados da rua podem – minha mulher NÃO pode rir. A besta desperta, de um só golpe a garrafa se estilhaça sobre seu corpo dormente. Um gemido de dor desesperado. Ela nem se moveu. Provavelmente dormia mesmo. Os contornos envelhecidos de seu rosto começam a se desfazer em sangue. É uma linda cena. Ela não grita mais, não sei se está morta, mas é linda assim mesmo. Sento em minha ‘cadeira do papai’ e acendo um cigarro para observá-la...
Mateus Souza
2 comments:
é cara, tomara que torne-se um livro mesmo, pra saber o que aconteceu depois!
imaginei as cenas!! sempre, sempre.
Gostei, Mateus. Muito legal esse texto. Por mim não precisa acrescentar mais nada.
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