Continuamos caminhando. Aquele monte de algumas brejas pagas por outrem já havia servido pra começar a noite. É assim mesmo, quando menos a gente espera mais a gente bebe, ou vice-versa, não que isso importe, mas acontece. E bebemos um pouco sentados e depois levantamos e continuamos mais um pouco até parar de novo.
Sentando no bar mais adiante longe mesmo daquele outro pedimos nossas cervejas baratas e começamos a noite novamente. Terceira garrafa virada no copo – nem isso – e senta conosco um homem bem torto de tanta bebida do dia inteiro. Alagoano, ele disse, alagoano cabra-macho que não leva desaforo e dá um murro na orelha do primeiro cachorro que se mete à besta com os amigos.
Nós éramos amigos. Sentado ele e nós todos com os copos vazios cheios vazios cheios – menos o alagoano arretado que não bebia nem um gole mais – foram várias garrafas. Entre elas no intermezzo ou durante mesmo a bebedeira o cabra dizia as coisas mais envolventes certeiras. Diz que vinha de Alagoas, Pão-de-Açúcar disse ele, desde antes de eu nascer ele desceu cá pra São Paulo – ilusão lugar cachorro que não tem tanto trabalho como gostam de pensar. E dizia dizia poesia de cordel falava que nem nordeste levantava a mão pro céu e ria ria e deixava a gente rindo pelas graças que acabavam saindo de toda aquela loucura bêbada dele e nossa ao mesmo tempo.
a lua surge no céu
redonda que nem uma vara
no dia que eu não ver ela
não boto o feijão no fogo
E ia sempre cada vez mais trazendo cerveja pra nossa mesa e contando suas proezas todas feitas no nordeste. Porque claro saibam todos que ele trabalhava lá em cima desse mapa, fazendo irrigação. E pra irrigação tinha todo um processo de cavucar a terra, separar o chão do resto, cavar bem um buraco, fazer uma dividição “COMO?” uma dividição “Como, meu amigo?” uma dividição oxe, deixe comigo que tô falando – colocar pra cada lado uma porção de terra justa pra fazer com que o buraco sirva bem pro que plantar – mamão melancia e o que mais aparecer.
E no nordeste também ele sabia bem tinha sempre muita cobra. Cabra valente claro que era tinha mesmo muitas vezes dado cabo dessas feras. Jibóia era moleza, cobra mansa que só ela, dava pra fazer subir no braço enrolar na mão e fazer carinho. Jibóia é cobra mansa que nem sucuri, “a gente pega ela com varinha de ripa de nambu”. “Como?” “Varinha de ripa de nambu, cabra, me escute que tô falando”. Varinha de nambu. As jibóias são mansas pra quem tem mão pra ripar, porque pros coitados dos bichos
mocó é um bicho chamado preá
que avisa "quiii quii"
do alto da serra
quando tem jibóia perigo por perto
Avisa e corre se esconde no mato porque não é lá que jibóia costuma nascer, jibóia é cobra que dá em lugar úmido
cascavel dá em lugar seco
em pedreira pedra
cascalho
por isso "casca"vel
E o cabra buscava mais cerveja e corria de volta pra mesa rindo pra já falar alguma outra besteira qualquer pra nós dois perdidos naquela noite insana
meio-dia
sol a pino
os pássaros voando sobre as árvores
sentado num banco de pau feito de pedra
nu com as mãos no bolso
- ele parava e perguntava pra mim, perguntava pro meu amigo -
quais as quatro maravilhas melhores desse mundo?
- não a gente não sabe! Por favor cabra (cabra!) fale quais são
tomar cachaça, paraíso de adão, saúde e as mãos no bolso pra tirar dinheiro
Pois era tudo assim como deveria ser paraíso de adão que é o colo quente no qual a gente se joga sempre que pode.
lírio manjericão que enfeita meu jardim
se pudesse ser assim
paraíso de adão
pela pura perfeição
que é da planta mais vistosa
até por cima do muro
planto cravo nasce rosa
Toda pura poesia como disse meu amigo, num outro dia seguinte louco de anotações sem fim pra poder lembrar de tudo ou o que me apetecesse e escrever esse conto louco louco porque, também, essa história de esperar muitos dias pras coisas acontecerem acabou com a desgraça da história do tal “Tchó!”
e o cara foi lá com um pedaço de aço
pediu pro ferreiro - sabe, aqueles ferreiros
que mexem com fogo e metal - e disse:
"faz pra mim uma enxada pra eu cavar a terra"
"claro faço sem problema. passa aqui na quinta-feira
outra que não hoje, me dá oito dias"
deu que se passaram os dias
e o cabra foi no forno
pediu na quinta-feira
e o ferreiro fez de morto disse:
"e fiz que fiz o aço diminuiu,
agora pra ti cabra eu faço é um enxadeco
daqueles bem firmes pra cavucar a terra"
"então não me aperreie mais com essa cachorrada
na outra quinta-feira passo aqui e por fineza
me entrega o enxadeco pra eu poder trabalhar"
foi foi mais sete oito dias outra quinta-feira veio
e o cabra arretado foi até o tal ferreiro
"sabe meu amigo cabra sério
enxadeco com esse aço não tem mesmo como certo
o máximo que posso é te fazer um martelo"
"oxe cachorro filhodumapeste
faça logo esse martelo que te dou três dias santos
pra poder voltar aqui"
e nos três dias depois
uma outra quinta-feira
o homem correu pro forno pra buscar o tal martelo
que era pra ser enxada
ou no mínimo enxadeco
"sabe meu amigo, martelo mesmo não deu
o que eu faço pra ti com esse aço
é um 'tchó' dos mais sinceros"
" 'tchó' ? mas que diabo da peste é 'tchó'?"
" 'tchó te faço agora não precisa nem espera"
e tomando do metal que era pra ser enxada
ponta quente feito brasa queimando num fogo rubro
olhou pro balde de água que servia de bacia
enfiou o ferro quente
e o 'tchó' que se ouvia
era o mesmo do cigarro
que meu camarada tinha
sendo enfiado num copo
de água com caipirinha
Ríamos ríamos ríamos claro por que não? afinal o cigarro já era e já era noite alta bem no meio madrugada e mais cerveja saía. O arretado de Alagoas que queria uma ajuda com algum advogado pra poder assumir a guarda da filha do Guarujá não bebia nem um tico do copo velho sujo quente pousado em cima da mesa. Era tanta coisa assim de parente e mulher foda – ela vinha de Sergipe também não era daqui, mas São Paulo deu à luz a menina do nordeste que agora, veja só, não ficava com o pai – saiu outro poema outro cordel outra arte
jacaré não tem tempero
cabra ruim não tem parente
mulher de bucho quebrado
não tem vestido que assente
Era a mais pura verdade bateu lá na consciência, num estado de ausência de qualquer futilidade que pudesse atrapalhar o gosto daqueles versos, soou como soa o sino da igreja ao meio-dia ou como o despertador que ao meio-dia acorda minha cara de ressaca depois de chegar em casa pouco antes e anotado tudo isso que falei.-- Leandro Durazzo --