Friday, February 02, 2007

Nonsense de São Valentim

Estava eu na vibe com o meu cu pra fora quando um gato preto cruzou meu caminho.
"Ai meu deus!" exclamei, pensei que teria azar pelo resto da minha vida, pois o mesmo aconteceu a uma vizinha minha pouco antes dela ser devorada por tubarões. Orei em silencio e cruzei os dedos na esperança de poder reverter o ocorrido. Logo em seguida fui a uma preta velha para ela me benzer com seus raminhos e o tal mijo de jesus. Aproveitei e pedi pra ela benzer meu cu pra fora, o que ela também fez com prazer.

Deus é pai.
Segui meu caminho até o açougue para comprar um avental branco. 10 mangos? Seja o que for. Paguei e saí vestindo o avental.
No percurso de volta testemunhei uma colisão entre dois automóveis. Eu estava perto o suficiente para ser atingido por cacos de vidro, mas não se preocupem, eu não me machuquei. A passageira de um dos carros saiu voando pelo pára-brisas e, batendo suas asas, parou num terraço e deu uma cagada. Seu marido, o motorista, encontrava-se ensangüentado, estendido no pavimento, à beira da morte e provavelmente vendo sua vida de merda passar em frente de seus olhos.
"Precisamos de um cirurgião!" gritou um pedestre e, apontando pra mim, implorou para que eu desse assistência à infortunada vítima. "Mas quem disse que eu sou um cirurgião?" questionei. "O avental te entregou" disse ele, e como não havia como negar o fato eu busquei o caco de vidro mais afiado do recinto e me aproximei da vítima que, em desespero, gargarejava seu próprio sangue.
Cortei-lhe a barriga e tratei de reatar o intestino grosso ao delgado, mas poderia ser o delgado no grosso, não lembro, sei que quando se rouba carros, deve-se sempre cortar o fio verde primeiro para ignição, possivelmente o vermelho, mas o homem está morrendo! Não há tempo para essas trivialidades sobre o furto. Tenho que lhe salvar a vida!
Remexendo suas tripas, espremi sem querer uma artéria e seu sangue jorrou por todo lado, inclusive no meu recém comprado avental.
”Ahh! Filha da puta”, pensei, fiquei ressentido, magoado. Estou eu na maior boa vontade tentando lhe salvar a vida e o filha da puta vai e suja o meu avental novinho.
Levantei-me e desisti do homem, mandando-lhe à merda com um grunhido de mal gosto e um aceno de mão sarcástico.
A gentalha se aglomerou em torno do corpo, enojada pelas entranhas expostas porém aliviadas quando o homem finalmente morre.
"Eu fiz o que pude" disse eu para todos ouvirem e saio de cena.
No caminho de volta para casa, entrei numa loja de departamentos e comprei um avental decorado em flores. 15 mangos? Seja o que for. Paguei e pus o avental na sacola.
Bato na porta da casa da minha esposa e ela a abre.
"Feliz dia dos namorados" lhe digo e entrego o avental florido.

"O meu ficou sujo de sangue, nem imaginas o dia que tive”.
"O importante é que estás bem. Fiz um jantar delicioso pra gente."
"Convidasse sua mãe e sua avó?"
"Sim, estão na cozinha"
"Maravilha," digo animado, "esse vai ser o melhor dia dos namorados de todos", e nos beijamos apaixonados.


-Guilherme Rocha

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