Wednesday, February 28, 2007
Monday, February 05, 2007
Lucífero
Nessa eternidade pude provar o sexo perverso e doentio que se cicatrizou em algum lugar escuro entre a alma e o espírito. Pude subjugar todos os meus ex-semelhantes, impondo-lhes minha ditadura de ordem onírica e subserviência. As regras faziam e desfaziam-se ao puro fluxo da consciência, e os sentidos acariciaram as mais tenras carnes já nascidas nesse lodo.
Assisti a uma guerra de camarote, onde filhos loucos desfolhavam seus pais com facas de cozinha, e regozijavam-se no remexer de suas vísceras recém estripadas. As mães gritavam em furor de uma arquibancada, e pediam mais sangue. Isso me deixou profundamente feliz.
Beleza e admiração juntaram-se em moléculas que construíram meu corpo naquele instante, e não havia um lugar onde não fosse cultuado e desejado. O corpo retesou-se a despeito dos anos vividos, e mostrou-se em curvas jamais idealizadas por estátuas gregas outrora esculpidas. Os punhos seguraram o mundo sem força, como um Atlas de pé, pronto para rodar o universo como um peão de corda.
Com seu sorriso demente, o anjo estava lá, e já não especulava possibilidades... Deliciava-se com a alma recém conquistada. Aceitei.
Saturday, February 03, 2007
A TRISTEZA POR NÃO VER
Seu olhar lacrimejado, pelo vento no rosto, não pela tristeza, dizia o que estava bastante visível: o homem perdera! Não a perda circunstancial de algo que com ele estava e um dia se foi, mas a perda existencial, de coisa que nunca teve, mas que lhe pesava saber que poderia ter tido. Naquele momento, tardio, homem sem fé. Não muito velho, mas não jovem suficiente para recomeçar. Sua vida passara, pouca coisa restava.
Quis andar, naquela noite, quis pensar. Gostava de pensar, apesar de tudo, mas o preferia caminhando, à noite, quando o trabalho não o ocupava, e também quando o cansaço não o impedia.
Não lhe saía da cabeça o olhar da filha, de pena, de vergonha, diante de um pai magro; boca vazia; postura arqueada; chapéu de palha. Logo ela, que foi embora quando já mocinha, naquele caminhão, quando muito chovia, acompanhada de não-sei-quem.
Ao homem pouco restava: um barraco, uma cabra. O burrinho morrera no ano anterior. A esposa também “morrera” quando há muito o deixou. Ficaram-lhe as dores, o vazio, e o desejo não realizado.
Teria de ir a cidade, mas não gostava. Atravessar a ponte, entrar naquela fila, talvez, dormir na fila, conseguir um número (gostava dos números) ver um “dotôr”, se fazer entender por um “dotôr”, e por Deus, que este fosse mais paciente, teria menos vergonha, e ultimamente, a dor estava forte demais! Tinha medo de se perder na cidade. Tinha medo de morrer na cidade.
A cidade. Tanto barulho; tanta gente; tanto dinheiro naquelas malas pretas carregadas por aqueles homens de gravata. O banco, tão frio, tão bonito. O hospital sujo e aquelas bancas de revistas. Tudo tão colorido. Queria logo pegar o remédio na farmácia pública e ir para casa.
O “dotôr”? Nem o tocou. Falou pouco. De longe. Lavou as mãos, mesmo não tendo chegado perto. Do mesmo jeito que antes. O remédio, mais um, quando acabar, volta a dor, nada de cura.
Um homem negro no caminho da rodoviária, rolando no chão, abraçando seu lixo com amor, falando com as pessoas que passavam sem as conhecer; bem poderia ser ele: sujo, ferido, sem esperança, destituído de pudor, esquecendo que é homem, reduzido aos molambos.
Muito triste a cidade. Muito triste. No campo, a tristeza fica dentro da cada um, mas na cidade, aparece: A tristeza em cada esquina.
Muitas vezes, o pequeno-homem-muito-pobre se colocava a tentar entender as coisas que aconteciam ao seu redor. Principalmente nestas raras idas à cidade. Pois dentro do ônibus, a visão monótona da estrada lá fora, muitos pensamentos trazia. Muitas imagens. E a estranha sensação de haver uma ligação entre cada uma delas. A chave da vida, da compreensão do mundo, parecia estar o tempo todo diante de si, mas ele não a encontrava: Ele não entendia, por exemplo, como um país tão rico quanto o nosso, com tanta terra fértil, podia abrigar tanta gente passando fome. Ou então, por que as autoridades se empenhavam em combater a violência na cidade, e não faziam nada contra o desemprego na cidade. Ou até mesmo, - e infelizmente o pequeno-homem não possuía uma biografia que lhe possibilitasse saber que estava chegando perto de uma definitiva resposta - por que os governos permitiam que o mundo se dividisse em uma pequena minoria de bem-aventurados, e uma grande maioria de miseráveis. Suas reflexões, secretas, eram dessa natureza, quase sofisticadas, em contraste com sua expressão humilde, fala precária e aparência sofrida.
No banco vazio do ônibus, ao seu lado, um pedaço de papel mal dobrado e torcido. Jogado. Era um pequeno panfleto com desenho em branco e preto de um índio enjaulado dentro do que seria globo azul da bandeira nacional. Abaixo um texto pequeno. Ele achou o desenho feio, jogou-o fora, retornou às suas reflexões...
É uma pena que nosso herói, como tantos outros brasileiros, infelizmente não saiba ler, pois se soubesse, encontraria naquele encardido pedaço de papel que agora ajuda a entupir algum bueiro no centro da cidade, a resposta para todas as suas perguntas.
Vitor Souza
Friday, February 02, 2007
Nonsense de São Valentim
Estava eu na vibe com o meu cu pra fora quando um gato preto cruzou meu caminho.
"Ai meu deus!" exclamei, pensei que teria azar pelo resto da minha vida, pois o mesmo aconteceu a uma vizinha minha pouco antes dela ser devorada por tubarões. Orei em silencio e cruzei os dedos na esperança de poder reverter o ocorrido. Logo em seguida fui a uma preta velha para ela me benzer com seus raminhos e o tal mijo de jesus. Aproveitei e pedi pra ela benzer meu cu pra fora, o que ela também fez com prazer.
Deus é pai.
Segui meu caminho até o açougue para comprar um avental branco. 10 mangos? Seja o que for. Paguei e saí vestindo o avental.
No percurso de volta testemunhei uma colisão entre dois automóveis. Eu estava perto o suficiente para ser atingido por cacos de vidro, mas não se preocupem, eu não me machuquei. A passageira de um dos carros saiu voando pelo pára-brisas e, batendo suas asas, parou num terraço e deu uma cagada. Seu marido, o motorista, encontrava-se ensangüentado, estendido no pavimento, à beira da morte e provavelmente vendo sua vida de merda passar em frente de seus olhos.
"Precisamos de um cirurgião!" gritou um pedestre e, apontando pra mim, implorou para que eu desse assistência à infortunada vítima. "Mas quem disse que eu sou um cirurgião?" questionei. "O avental te entregou" disse ele, e como não havia como negar o fato eu busquei o caco de vidro mais afiado do recinto e me aproximei da vítima que, em desespero, gargarejava seu próprio sangue.
Cortei-lhe a barriga e tratei de reatar o intestino grosso ao delgado, mas poderia ser o delgado no grosso, não lembro, sei que quando se rouba carros, deve-se sempre cortar o fio verde primeiro para ignição, possivelmente o vermelho, mas o homem está morrendo! Não há tempo para essas trivialidades sobre o furto. Tenho que lhe salvar a vida!
Remexendo suas tripas, espremi sem querer uma artéria e seu sangue jorrou por todo lado, inclusive no meu recém comprado avental.
”Ahh! Filha da puta”, pensei, fiquei ressentido, magoado. Estou eu na maior boa vontade tentando lhe salvar a vida e o filha da puta vai e suja o meu avental novinho.
Levantei-me e desisti do homem, mandando-lhe à merda com um grunhido de mal gosto e um aceno de mão sarcástico.
A gentalha se aglomerou em torno do corpo, enojada pelas entranhas expostas porém aliviadas quando o homem finalmente morre.
"Eu fiz o que pude" disse eu para todos ouvirem e saio de cena.
No caminho de volta para casa, entrei numa loja de departamentos e comprei um avental decorado em flores. 15 mangos? Seja o que for. Paguei e pus o avental na sacola.
Bato na porta da casa da minha esposa e ela a abre.
"Feliz dia dos namorados" lhe digo e entrego o avental florido.
"O meu ficou sujo de sangue, nem imaginas o dia que tive”.
"O importante é que estás bem. Fiz um jantar delicioso pra gente."
"Convidasse sua mãe e sua avó?"
"Sim, estão na cozinha"
"Maravilha," digo animado, "esse vai ser o melhor dia dos namorados de todos", e nos beijamos apaixonados.
-Guilherme Rocha